O regresso ao local do “Tesouro da Borralheira”
Filipe SanchesSociedade
Quantos de nós sonhámos, na infância, com a possibilidade de encontrarmos um valioso tesouro, certamente inspirados por contos e lendas da literatura, pelas conquistas de piratas verdadeiros como Francis Drake ou o Barba Negra (Edward Teach) ou por histórias de ficção que encheram telas de cinema e ecrãs de televisão?
Esse desejo – que ainda hoje está na cabeça de “caçadores” de todo o mundo, que até já utilizam moderna tecnologia de deteção de metais – tornou-se realidade para três crianças beirãs há cerca de 65 anos. O denominado “Tesouro da Borralheira”, hoje guardado no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, foi encontrado em 1953, na pequena localidade da freguesia do Teixoso.
A história não é propriamente uma novidade e vários especialistas se debruçaram sobre ela, principalmente académicos ligados ao estudo da época romana, à qual pertencem os “haveres” descobertos (séculos I, II e III). Até no JF, em janeiro e fevereiro de 1954, o professor José Monteiro dedicou duas edições ao tema. Praticamente, já se sabe tudo sobre cada peça de joalharia, sobre cada moeda encontrada. Naturalmente, o tesouro foi sempre mais importante do que as pessoas.
Mais de seis décadas e meia depois do dia que marcou a história da Borralheira, regressámos ao sítio em que tudo começou. O terreno está hoje ocupado por uma vivenda e vê-se apenas o local em que foram lavadas as peças, mas encontrámos as “caçadoras” do tesouro. Agora reformadas, fizeram vidas normais. Mulheres de trabalho e de família.
Nem sabíamos o que era. Pegámos naquilo tudo, fomos lavar na ribeirita, pusemos a secar ao sol e continuámos a brincar. Até jogámos à bola com as moedas!
Ana Lourenço, de 72 anos, que ainda vive na aldeia, hesita em falar do assunto que marcou a sua vida. Desvaloriza-o até. Mas vai ficando mais à vontade. “A minha memória já não é perfeita, mas claro que me lembro desse dia. Eu e a minha irmã Albertina (que já morreu) estávamos a brincar junto à Barroca da Laje, onde se lavava a roupa. Também lá estava a Maria do Carmo. A terra tinha sido lavrada e apareceu-nos um púcaro pequeno, aí de dois litros. Assim que o agarrámos desfez-se completamente, mas vimos o ouro. Nem sabíamos o que era. Pegámos naquilo tudo, fomos lavar na ribeirita, pusemos a secar ao sol e continuámos a brincar. Até jogámos à bola com as moedas!”
A inocência das três garotas (às quais se juntaram outras crianças) contrastou com a esperteza de algumas raparigas e mulheres mais velhas, que ali chegaram para lavar a roupa e rapidamente deitaram mãos ao ouro. “Elas começaram logo a arrebanhar. Só aí percebemos que era uma coisa valiosa. Eu e a minha irmã agarrámos no que pudemos e fomos para casa”, conta Ana.
Mas veio lá uma f**** da p***, bateu-me na mão e tirou-me muita coisa. Se eu não fugisse para casa, limpava-me tudo.
A outra menina, Maria do Carmo Andrade, fez o mesmo. Hoje vive em Caria. É apenas um ano mais velha (tem 73). É mulher de palavras fortes. “Olhe, eu tinha um aventalzito e quando vi aquele rebuliço das mulheres mais velhas comecei a meter lá as coisas, a escondê-las. Mas veio lá uma f**** da p*** – não quero dizer o nome porque já a levou o diabo – bateu-me na mão e tirou-me muita coisa. Se eu não fugisse para casa, limpava-me tudo.”
A descoberta foi na manhã de 10 de dezembro, mas à tarde já toda a gente sabia o que se passava. António da Cruz também tinha 7 anos nessa altura, mas não teve a mesma sorte. “Bem me lixei. Nesse dia, o meu pai mandou-me com o meu irmão a Caria. Fomos buscar castanhas. Quando regressámos é que vimos aquela confusão toda. Já não nos deixaram ir ao sítio.”
Se durante o dia tudo ficava calmo e vigiado, à noite o terreno onde tinha sido encontrado o tesouro foi revolvido vezes sem conta. Todos pensavam que haveria ali mais púcaros cheios de ouro.
GNR revistou todas as casas
A GNR do Teixoso soube da história e rapidamente destacou uma equipa para recuperar o achado. O 2.º cabo n.º 31 comandou as operações, apoiado pelos soldados 157 e 226. Durante vários dias levaram a cabo uma série de interrogatórios e revistas às habitações, recuperando muitos artigos. Ana e Maria do Carmo recordam que ficaram cheias de medo, porque os guardas faziam perguntas sobre tudo e mais alguma coisa. “Mas também não eram muito espertos”, garante Maria do Carmo, explicando: “O meu pai não entregou tudo. Ficou com quatro moedas numa lata, que escondeu debaixo do soalho. Não deram por ela…”
Este tema é ainda hoje uma espécie de tabu, fala-se baixinho… Parece que ainda há medo que a GNR volte cá
António da Cruz confirma. “Muita gente terá escondido bem os haveres. Sempre se ouviu dizer aqui na Borralheira que fulano tem umas moedas, que o outro também. Dizem que houve gente a fugir daqui com o ouro, guardando-o em casas de familiares. Este tema é ainda hoje uma espécie de tabu, fala-se baixinho… Parece que ainda há medo que a GNR volte cá”, afirma, entre uma gargalhada.
Ana Lourenço vai mais longe na quantificação do material “desviado”: “Há uns anos disseram-me tudo o que estava na coleção lá em Lisboa. Posso-lhe dizer que isso não é sequer um terço do que estava no púcaro. De certeza que muita gente conseguiu ficar com peças. Houve mulheres a pagar mercearia com moedas de ouro. Olhe que os ourives orientaram-se bem. E se calhar até os guardas meteram alguma coisa ao bolso…”
Recuperado e reunido o tesouro, o 2.º cabo 31 fez um relatório pormenorizado a 17 de dezembro sobre as apreensões realizadas, atribuindo quase a totalidade do achado às irmãs Lourenço e à pequena Maria do Carmo. Um outro garoto, Manuel Bexiga, que chegara mais tarde, teria encontrado apenas um brinco. Trocara-o por duas moedas de ouro com uma mulher. Nas revistas, essa mulher ficou sem o brinco. O miúdo, esperto, disse que tinha perdido as moedas…
Chamaram o maior especialista
A GNR pediu ajuda a Pires Marques, conservador do Registo Predial, para catalogar o tesouro. De seguida foi entregue à Câmara Municipal da Covilhã, mas depressa o Estado soube da importância do achado e mostrou interesse em comprá-lo. Essa missão foi entregue pela Junta Nacional de Educação a Manuel Heleno, professor catedrático da Universidade de Lisboa e na altura diretor do Museu Etnológico, que se deslocou propositadamente ao concelho da Covilhã.
Era o maior especialista português na matéria e até editou o livro “O Tesouro da Borralheira”, onde está muita da informação aqui referida. “Pelo valor artístico, pelo significado histórico e pela sua raridade, o tesouro da Borralheira constitui um conjunto de alto valor, único em Portugal. Bem-haja o Governo pela sua aquisição”, decretou, sem qualquer dúvida, o professor Manuel Heleno.
Quanto valeria o tesouro?
Naturalmente, um achado desta natureza, com mais de 1800 anos, tem um valor incalculável. Por isso, o Estado português classifica-o como coleção de “Interesse Nacional”.
Colocando a hipótese de haver pessoas da Borralheira que ainda tenham, por exemplo, uma moeda deste tesouro, dificilmente conseguirão saber ao certo o seu valor. Um áureo de Nero, por exemplo, datado de 65 d.C. (sec. I), poderá atingir em leilões na Internet mais de cinco mil euros. Mas como se processaria uma venda? Que complicações e restrições haveria?
O meu pai comprou-me um cordão de ouro com mil escudos, gastou dois contos para comprar um bezerro e guardou os outros mil escudos
As “caçadoras” do tesouro, Ana e Maria do Carmo, nunca pensaram nisso, até porque, “infelizmente”, não ficaram com nada do achado. E se tivessem não era para vender. “Eu levei tudo para o meu pai e ele depois entregou à GNR. Se a memória não me falha, deram-nos 28 contos, porque éramos duas irmãs. A família da Maria do Carmo recebeu 14 contos, porque era só uma criança. Sei que o meu pai, que era barbeiro, utilizou parte do dinheiro para fazer a nossa casa, com barbearia e tudo”, revela Ana Lourenço.
É aqui que há uma discrepância nas memórias. Maria do Carmo não se lembra que tenham sido 14 contos. “A ideia com que fiquei era de nos terem dado quatro contos. O meu pai comprou-me um cordão de ouro com mil escudos, gastou dois contos para comprar um bezerro e guardou os outros mil escudos.”
Nestes 65 anos desde a descoberta, nunca foram a Lisboa ver o tesouro. Admitem que gostariam de o ver, caso viesse à Covilhã em exposição temporária. Maria do Carmo, com um sorriso, fecha o assunto: “O que eu gostava era de voltar a ter no pescoço aquela gargantilha com pedras vermelhas.”
Um dos mais valiosos achados da época romana
O “Tesouro da Borralheira” que foi reunido pelas autoridades em 1953 e entregue ao então Museu Etnológico está atualmente à guarda do Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e continua a ser um dos mais importantes e valiosos.
É constituído por várias peças, destacando-se um colar com 42 centímetros, de ouro e 34 pedras preciosas (granadas) e diamantes, e um par de brincos em ouro com uma esmeralda cada um. O tesouro tem também quatro anéis de ouro puro: um com pedra de vidro azul-turquesa; outro com pedra gravada com a figura de Mercúrio ou Sátiro; outro é trabalhado em forma de corda; e o último apresenta a inscrição VTF, que vem do Latim utere felix (usar sorte).
O achado contém também quatro fragmentos de colheres de prata. Por fim, as 40 moedas de ouro (áureos): uma do imperador Nero (a mais antiga); duas do imperador Tito; duas do imperador Trajano; 12 do imperador Adriano; seis do imperador Antonino; seis de Faustina Mãe; cinco do imperador Marco Aurélio; três de Faustina Jovem; uma do imperador Septímio Severo; uma de Julia Domna; e uma do imperador Geta.
Filipe Sanches