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Pastores desanimados sem pastagens após os incêndios

António Manuel da Cruz é pastor em Castelo Novo desde que começou a dar os primeiros passos. Já lá vão mais de seis décadas a palmilhar a encosta da Gardunha para dar alimento ao rebanho. Vive feliz porque faz o que mais gosta. “Sabe, também não sei fazer outra coisa”, declara. Mas por esta altura não tem nenhum motivo para andar satisfeito. O inverno pouco chuvoso, os incêndios que devastaram a encosta da serra e os campos em torno das aldeias, a chuva que tarda em não cair tornam a atual época excecional pelos piores motivos: os rebanhos estão sem alimento e prevê-se uma queda na produção de leite.

António Cruz tem cerca de 100 cabras para a produção e venda de cabritos. Está a alimentar o rebanho com feno disponibilizado pelo município do Fundão. “Não tem a mesma qualidade que o pasto natural. Este ano até as cabras não andaram bem. Tive umas seis que abortaram, porque andaram stressadas com os incêndios. E daqui para a frente, não sei como vai ser com as crias, porque as cabras, na verdade, não andam a comer como estavam habituadas”. O rebanho permanece na Gardunha todo o ano, ora ao relento nos meses de verão, ora em palheiros no inverno. Manuel Cruz ficou sem um destes espaços. “Um ardeu-me, tinha lá palha e foi-se tudo”, e lamenta. Os outros salvaram-se ainda que o lume tivesse por ali andado à volta.

Na Serra da Estrela, o panorama não é melhor. “Vamos aguentar o rebanho aqui na serra ao máximo, mas quando o frio começar a ser muito, teremos de descer e aí não sabemos como vai ser, porque lá em baixo está tudo ainda mais ardido do que aqui”. Nas Penhas da Saúde, Carlos Santos, “pastor de serra há 52 anos”, equaciona abandonar o cajado e o capote face à ausência de alimento natural para o rebanho de cabras que enquanto conversamos se distribuem por entre pedras e mato a poucos metros da uma unidade hoteleira da Serra da Estrela, numa pequena área da encosta que um dos últimos incêndios da Covilhã poupou. Tudo à volta é negro.

Toda a reportagem na edição impressa do JF.

Célia Domingues