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Milhões de abelhas estão a ser alimentadas com açúcar

Toneladas de açúcar estão a ser distribuídas pelo Ministério da Agricultura para salvar as abelhas que, sobreviveram aos incêndios e que por causa da seca não conseguiram comida (leia-se néctar e pólen) para se alimentarem e produzirem reservas de mel para o inverno. Não há memória de um ano assim. A situação é tão dramática que os apicultores falam numa quebra de produção de 70 a75 por cento e avultados prejuízos.

“O ano apícola de 2018, nas áreas ardidas, está comprometido por falta de flora apícola”, antevê João Mesquita, técnico na Pinus Verde, associação que estende a sua área de influência aos concelhos do Fundão, Covilhã e Oleiros, onde as chamas destruíram “400 colmeias”.

“Nas zonas afetadas pelos incêndios, os prejuízos deverão rondar os 70 mil euros, entre a destruição de colmeias, gastos com alimentação artificial e perdas de produção”, acrescenta o técnico, estimando que a quebra de produção de mel possa ser superior aos 75 por cento, devido à falta de precipitação.“Os apicultores estão, desde setembro, a alimentar artificialmente as abelhas para as colónias não morrerem à fome, o que aumenta drasticamente os custos da produção do mel.

Dramática é também a situação na área de influência da Meltagus, que atua nos concelhos de Castelo Branco, Vila Velha de Ródão e Idanha-a-Nova. A situação é de tal forma preocupante, que o Ministério da Agricultura decidiu distribuir, de forma faseada, e através de quatro plataformas, cerca de 120 toneladas de açúcar pelas regiões mais afectadas pelos incêndios.

Uma dessas plataformas de distribuição do açúcar pelos apicultores das zonas mais afetadas funciona precisamente em Castelo Branco e já recebeu 24 toneladas de açúcar, para a Meltagus (Castelo Branco, Vila Velha de Ródão e Idanha-a-Nova), a Pinus Verde (Fundão, Covilhã e Oleiros), a Meimoacoop (Penamacor, Sabugal, Belmonte e Guarda), a Melbandos e Apilegre, duas organizações apícolas de outras regiões do país.

O objetivo é ajudar os apicultores a retomar uma atividade que está a viver sérias dificuldades, devido aos incêndios e à seca. Há abelhas a morrer à fome e muitas mais ficarão em perigo se continuar sem chover.

“Alguns dos nossos apicultores foram gravemente afetados pelos incêndios e pela seca”, confirma Odete Gonçalves, presidente da direção da Meltagus, associação que presta apoio a cerca de 16 mil colmeias, acrescentando que não há alimento para as abelhas, o que  significa maiores gastos para os apicultores. “Há muitas abelhas a passar fome e que precisam urgentemente deste suplemento alimentar que o Ministério está a distribuir. E se não forem  alimentadas, as abelhas não conseguirão resistir ao inverno”, adverte.

“Em circunstâncias tão difíceis como as deste ano a única forma de assegurar a sobrevivência das abelhas e a produção de algum mel é alimentá-las artificialmente, até à próxima primavera”, disse ao JF, Rogério Pires,técnico da Meimoacoop, lembrando que este ano as colónias não conseguiram criar as habituais reservas para se alimentarem, durante a época de inverno.

“A alimentação artificial permitirá a sobrevivência e a própria manutenção das colónias”, acrescenta o técnico, sublinhando a necessidade de manter o efetivo apícola, e esclarecendo que a alimentação artificial não põe em causa a qualidade do mel.

Três quilos por colmeia

A primeira distribuição de açúcar para alimentar as abelhas foi feita no dia 15 de novembro, mas outras fases se seguirão para garantir que as colmeias não morrerão à fome por causa dos incêndios e da seca.  No caso da Meltagus, sedeada em Castelo Branco, foi pedido alimento para 19.200 colónias.

Cada colónia tem uma média superior a 10 mil abelhas, o que significa que estão a ser alimentados artificialmente mais de 190 milhões de abelhas só no distrito de Castelo Branco. A situação é preocupante e produizirá reflexos noutros sub-setores da agricultura porque a redução do efetivo apícola vai prejudicar a polinização das árvores de fruta.

Lúcia Reis