InícioSociedadeA grande “loucura” no maior madeiro de Portugal

A grande “loucura” no maior madeiro de Portugal

A tradição volta a cumprir-se. O maior madeiro de Portugal já está na rua e o momento da chegada ao centro de Penamacor voltou a ser uma verdadeira festa. Não faltou animação, nem gente. As ruas voltaram a encher-se de pessoas, fazendo lembrar tempos em que a desertificação ainda ali não morava. Houve ainda aplausos, música, bombos, tocadores de concertina e o inconfundível som de buzinas de tratores e veículos pesados. Houve quem tirasse fotografias e houve quem preferisse as mediáticas selfies. Houve quem se limitasse a observar e houve quem cantasse, intercalando  o também já tradicional “Oh, madeirinho,  lá lá lá; oh madeirinho”, com o “Deixem passar o maior de Portugal, o maior de Portugal”.

E o certo é que ele passou. Imponente e grandioso, afastando quaisquer dúvidas que ainda pudessem subsistir. Este é mesmo o maior madeiro do País. Este ano foram necessários 18 veículos para transportar as muitas toneladas de lenha que o compõem. Troncos de grande dimensão que foram depois empilhados no largo da Igreja, atingindo uma altura tão considerável como a do próprio edifício. Em suma, um verdadeiro motivo de orgulho.

Orgulho para todos, mas principalmente para os que colocam a festa na rua. Na já conhecida vila madeiro, a tradição dita que sejam os jovens que completam 20 anos. Este ano foi a “Malta de 97” a não deixar créditos por mãos alheias.

“Foram duas semanas sem parar. De porta em porta para pedir apoio e organizar tudo. Foi uma correria, mas valeu a pena. Está aqui um madeiro de categoria”, aponta João Maneiras, um dos 16 jovens a quem coube a tarefa de promover a edição deste ano.

Natural de Penamacor, João está a estudar em Braga mas nem isso o impediu de estar presente nos momentos chave: “Até podia ter de faltar a algum exame, mas ao meu madeiro é que não”, frisa.
Leonor Pelayo partilha desta opinião. A jovem já não está em Penamacor há vários anos fez questão de pedir aos amigos de sempre que a deixassem participar. Assim foi.

“É espetacular. Eu adoro Penamacor e nunca vou esquecer este dia”, afiança.

Nem ela, nem os restantes jovens que, uma vez mais contaram com a ajuda de cerca de 60 pessoas para conseguirem concretizar a empreitada. Município, empresários, associações, proprietários e trabalhadores agrícolas e os pais destes jovens, ninguém diz que não e cada um ajuda como ou com o que pode.

António Campos, trabalhador agrícola, é já presença assídua. Há mais de 30 anos que ajuda a arrancar os troncos e a transportá-los.

“Faço-o com todo o gosto”, garante, enquanto os troncos de sobreiro vão sendo transferidos dos tratores para o chão com a preciosa ajuda de uma espécie de braço mecânico ou, melhor dizendo, um empilhador telescópico rotativo.

E são muitos os que assistem ao momento, muitas vezes registado com as câmaras dos respetivos telemóveis. Memórias para partilhar nas redes sociais ou simplesmente nos arquivos pessoais e às quais terá ainda de se juntar o momento em que a enorme fogueira é ateada, no dia 23 à meia-noite.
“Vale mesmo a pena assistir”, quem o garante é Ana Matos que é de Lisboa e que ficou a conhecer este costume depois de ter casado com um penamacorense.

De Lisboa chegaram também Manuel e Margarida Pinto. São ambos naturais de Penamacor, mas os estudos e o trabalho levaram-nos para outras paragens. Regressam sempre que podem, mas em especial nesta data. Aproveitam para relembrar o ano em que eles próprios fizeram parte da organização.
“Esta é sempre uma data importante porque também coincide com a altura em que nos conhecemos. Além disso, aproveitamos para mostrar esta tradição aos miúdos”, refere Manuel Pinto, que até gostaria que os filhos um dia viessem a participar ativamente nesta festa.

Com sete e quatro anos, Benedita e Afonso Pinto ainda estão longe da data em que a hipótese poderá ser colocada, mas Afonso Pinto já diz que “um dia” também quer ir no cimo de um dos tratores.

Uma oportunidade que já é dada a muitos outros, nomeadamente a Diogo Culela que, acompanhado da sua concertina, desperta a atenção dos que assistem, em particular de Horácio Pio, que lhe deu aulas de concertina.

A poucos metros, João Dioniso Martins, 74 anos, também observa a chegada do madeiro. Um costume que cumpre desde sempre, mas que este ano teve um sabor especial.

“Este ano é que não podia faltar de maneira nenhuma porque é o ano de uma das minhas netas”, diz, sem esconder o orgulho de avô e lembrando ainda o madeiro do ano em que completou 20 anos.

Tempos idos, em que as mulheres não participavam e em que não se podia contar com a ajuda de tratores ou motosserras: “Era tudo feito com machados e picaretas e transportado em carros de bois”, lembra Arménio Henrique, 73 anos, que também elogia o esforço que todos têm feito para manter viva a chama da tradição.

Catarina Canotilho