(c) Diamantino Gonçalves
Descoberta está inscrita em rocha granítica e enquadra-se na chamada Arte Atlântica. São representações artísticas em círculo e as mais antigas poderão situar-se entre o Calcolítico e a Idade do Bronze. Achado vem reforçar o interesse cultural e turístico da Serra da Gardunha.
São círculos gravados em painéis de granito e foram descobertos pelo chefe dos sapadores da Pinus Verde, na encosta norte da Serra da Gardunha. Um achado que reforça o potencial arqueológico, cultural e turístico do concelho do Fundão em matéria de arte rupestre, garantem os especialistas.
“É um bom exemplo de Arte Atlântica, numa região já muito meridional”, considera o arqueólogo António Martinho Batista, que dirigiu o Centro Nacional de Arte Rupestre e do Parque Arqueológico do Vale do Côa. Segundo aquele especialista, as gravuras descobertas na Serra da Gardunha têm “bons paralelos na arte do Vale do Tejo, onde são abundantes os círculos concêntricos.
Este painel bem poderia estar localizado no Fratel ou no Cachão do Algarve (dois dos principais locais da Arte do Tejo)”, refere Martinho Batista, anotando que as representações mais antigas poderão situar-se “entre o Calcolítico e a Idade do Bronze”, ou seja, por volta do 3.º milénio a. C. e que as mais recentes poderão enquadrar-se na Idade do Ferro, ou seja, já no 1.º milénio a.C.
“É um grande acontecimento para o património arqueológico do Fundão, uma oportunidade para reforçar a Gardunha na geografia das serras, tal como o Poço do Caldeirão o significou para o Rio Zêzere relativamente à sua história milenar”, considera o presidente da Câmara do Fundão, Paulo Fernandes, agradecendo “aos protagonistas da descoberta, num claro exemplo do papel que os cidadãos podem ter “na proteção e valorização do património”, acrescenta o autarca fundanense.
As gravuras foram descobertas na encosta norte da Serra da Gardunha, num local de acesso difícil, perto de uma ribeira. “Só se consegue lá chegar a pé, de trator ou carrinha todo o terreno “, disse ao JF, Francisco Manuel dos Santos.
Era um dia de trabalho como todos os outros. A equipa de sapadores, constituída por cinco elementos, deslocava-se para o local de trabalho. O chefe dos sapadores conduzia a carrinha, quando as gravuras surgiram no seu ângulo de visão, “a cerca de cinco metros de distância”.
Olhou uma e outra vez, tentando perceber do que se tratava. Ficou curioso. Andou mais alguns metros até conseguir virar a carrinha.“Quis ver de perto, com mais atenção”.
Contou aos colegas, dirigiram-se à rocha e os olhos abriram-se de espanto: “Já passei umas cinquenta vezes naquele sítio, mas nunca tinha reparado naquela rocha”, contou, entusiasmado com a descoberta, que partilhou com os filhos, nesse mesmo dia, ao chegar a casa, mostrando-lhe as fotos que tirara com o telemóvel.
“As gravuras são representações simbólicas, constituídas por círculos segmentados e círculos concêntricos, desenhados por picotagem em painéis rochosos, inserem-se na chamada Arte Atlântica, muito presente no noroeste da Península Ibérica”, referem os entendidos, que não são unânimes quanto ao significado das figuras: tanto poderão representar rodas, como representações solares.
David Caetano, engenheiro informático e dirigente dos Caminheiros da Gardunha, e Diamantino Gonçalves, fotógrafo e técnico de ótica, ligado à descoberta das gravuras rupestres do Poço do Caldeirão, na Barroca, foram das primeiras pessoas a ver o achado, tendo, entretanto, encontrado outros grupos de gravuras nas imediações. Acredita-se que possa haver mais representações semelhantes na Gardunha.
“O Fundão é um polo de convergência, onde se cruzam os mundos culturais do Interior da Península”, disse ao JF Primitiva Bueno, catedrática de Pré-história na Universidade de Alcalá, Madrid, Espanha.
“No Fundão, há Arte Paleolítica, Epipaleolítica, Neolítica, Calcolítica e da Idade do Bronze até ao período Romano, o que confere um grau de excecionalidade a essa zona da Península”, acrescenta a especialista em Arte Rupestre Peninsular, sublinhando “o interesse único da história escrita nas pedras”.
O trabalho de investigação sobre estas gravuras será conduzido pelo Museu Arqueológico Municipal do Fundão, que é dirigido por Pedro Salvado.
“O nosso Museu está a programar um plano para reforçar o estudo e proteção das gravuras”, adianta o presidente Paulo Fernandes, explicando que já foi estabelecido contacto com o Museu do Côa, no âmbito das parcerias que existem para este efeito.
Recorde-se que a Câmara do Fundão e a Câmara de Arganil, em parceria com a Rede Aldeias do Xisto e a Associação Pinus Verde, lançaram a génese de uma Rede de Arte Rupestre na Região Centro, a partir dos Centros Interpretativos da Barroca (Poço do Caldeirão) e de Chãs d’Égua, o que permitirá valorizar os conjuntos de arte pré-histórica identificados na Região Centro, bem como todo o potencial cultural e turístico dos mesmos.
Às gravuras rupestres do Poço do Caldeirão, na Barroca, descobertas há anos por Diamantino Gonçalves e Belarmino Lopes, juntam-se agora as gravuras encontradas na encosta norte da Serra da Gardunha e que os especialistas consideram ser muito importantes, assumindo-se como um ponto de reconhecido interesse arqueológico e turístico na Serra da Gardunha.
Lúcia Reis
