InícioSaúde“Na nossa região um terço das crianças tem excesso de peso”

“Na nossa região um terço das crianças tem excesso de peso”

Carlos Rodrigues é médico e diretor do serviço de Pediatria do Centro Hospitalar da Cova da Beira há 17 anos. Tem 56 anos e é um transmontano de gema. Dedica-se à medicina há perto de três décadas e é um apaixonado pelo mundo da pediatria.

JORNAL DO FUNDÃO – É diretor do serviço de pediatria do Centro Hospitalar Cova da Beira (CHCB). Como está a saúde dos nossos bebés no Interior?

CARLOS RODRIGUES – A saúde dos nossos bebés está bem e recomenda-se. Na Cova da Beira os indicadores disponíveis ao nível dos melhores evidenciam bem a qualidade dos cuidados prestados. A nossa comunidade reconhece-o, por exemplo, aderindo à Semana do Bebé que se realiza anualmente, e, este ano, temos a 16 e 17 de novembro, as Jornadas Nacionais de Neonatologia na Covilhã reveladoras do reconhecimento científico que nos distingue e responsabiliza.Estes resultados são a consequência de um trabalho de equipa que envolve o ACES Cova da Beira, o CHCB (em todas as valências), e também o H.P. de Coimbra. Os pilares deste trabalho são a formação dos profissionais, o equipamento disponível e a coordenação/articulação de cuidados.

Que conselho dá a uma mãe de um recém nascido numa primeira consulta ao pediatra?

Numa palavra: confiança. Confiança nas suas capacidades, como mãe, nos seus valores culturais e morais. Confiança de que apesar dos erros vai conseguir educar bem, com amor e dedicação. Confiança no pediatra, tanto na sua vertente humanista, como científica.

As escolas estão mais sensíveis para as questões ligadas à alimentação das crianças. A obesidade infantil é uma doença que o preocupa?

Sim e bastante. Na nossa região um terço das crianças tem excesso de peso. Na nossa área de influência criámos um programa de intervenção em conjunto com a Faculdade de Ciências do Desporto a que chamámos: PRO- Lúdico. Também assinámos um protocolo com as Câmaras Municipais, com os agrupamentos de escola e com o ACES da Cova da Beira. Aguardamos a concretização de apoio financeiro para um programa mais vasto e robusto, que pretende intervir nos fatores desencadeantes da obesidade seja na escola, na família e nas próprias crianças.

O nosso país eliminou cinco doenças, entre as quais a rubéola e o sarampo. Como olha para os avanços da pediatria, em Portugal?

A Pediatria em Portugal tem evoluído de forma notável. Os nossos indicadores de Saúde Infantil há 50 anos estavam na cauda da Europa e estão atualmente nos lugares cimeiros dos rankings mundiais. Isso é também verdadeiro para a nossa região. As nossas preocupações com a saúde das crianças e adolescentes há muito que ultrapassaram o mero tratamento da doença e passaram a focar-se na prevenção e na promoção da saúde. Podemos dizer que a “batalha” das doenças infecciosas está controlada muito à custa das vacinas e das condições higieno-sanitárias, apesar de alguns desafios ocasionais. Também a mortalidade infantil está em valores que justamente nos orgulham num contexto à escala mundial. Nos últimos anos temos dedicado especial  atenção à saúde dos adolescentes, à prevenção de acidentes (onde temos ainda que melhorar), à saúde mental e às doenças do comportamento como a obesidade, o sedentarismo e as dependências.

Atualmente por questões culturais há pais que optam por não vacinar os seus filhos. É um risco para a saúde pública?

É acima de tudo um risco para quem não é vacinado. Quando as famílias decidem em nome dos seus filhos (que não podem optar) e contrariando todas as evidências científicas não vacinar estão, na minha opinião, a abusar do seu poder parental e a desrespeitar os direitos dessas crianças. Por outro lado, trata-se também de um problema de saúde pública dado que nos coloca em risco enquanto comunidade, particularmente aos seus elementos mais vulneráveis.Felizmente em Portugal este fenómeno tem pouca expressão, mas todos devemos ser mais ativos na defesa da vacinação.

“Há ainda mais duas doenças que já não circulam em Portugal: a difteria (sem transmissão há cerca de 30 anos) e a raiva humana.” Se reaparecessem esse tipo de doenças, os médicos conseguiam identificá-las?

Algumas dessas doenças continuam a ser estudadas e ensinadas nas nossas faculdades de Medicina. No mundo em que vivemos com viagens e fluxos migratórios de e para locais onde algumas dessas doenças são endémicas temos de estar preparados para as diagnosticar. No entanto a falta de contacto regular pode dificultar o diagnóstico. O exemplo do recente surto de sarampo evidencia bem como o reconhecimento precoce e a reação rápida das autoridades de saúde pública a par da nossa altíssima taxa de vacinação permitiram a contenção do surto.

Como sabe, a taxa de mortalidade infantil nos anos 60 do século passado era elevadíssima. Em 2016 a taxa mortalidade foi de 3,2 por mil. Podemos dizer que somos dos países da Europa que melhor cuida das suas crianças?

Podemos dizer que Portugal é um dos países em todo o mundo que melhor cuida das suas crianças. Recentemente fomos classificados no top 10 mundial dos melhores países para se ser criança.A classificação é feita com base em vários aspetos como a mortalidade infantil, estado nutricional, acesso à educação, trabalho infantil, maternidade na adolescência entre outros. Cuidar de crianças não é apenas uma questão médica, é algo que envolve toda a comunidade e que nos eleva enquanto sociedade quando o fazemos bem.

Já pediu alguma prenda de Natal para a pediatria do Hospital da Cova da Beira?

As prendas que desejo são apenas para as crianças da Cova da Beira. Uma delas é a concessão do financiamento que aguardamos para concretizar o projeto na área da obesidade e a outra o recrutamento de mais pediatras para desenvolver outros projetos que assegurem a melhoria contínua da saúde das nossas crianças e adolescentes.

Pedro Silveira