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Viagem com livros na mão

Manuel da Silva Ramos

Um clube de leitura deve viajar sempre para encontrar os seus  similares e assim criar laços e pontes de leitura. Já sabemos que um livro cria amizade. Já sabemos também que o leitor, que pratica a divulgação de um livro pelo processo “ boca a boca” , é um grande auxiliar de um escritor que sofre, a maior parte das vezes, de uma medíocre distribuição das suas obras. E também sabemos que um escritor que corre as Comunidades de Leitores espalhadas pelo país encontra abrigo salutar e novos leitores atentos.

Tudo isto prova que os Clubes de Leitura são importantíssimos em Portugal num momento em que os portugueses andam alheados das coisas da cultura. Actualmente, existem mais de oitenta Comunidades de Leitores e Clubes de Leitura espalhados por Portugal cumprindo uma função de trincheira resistente contra o mar de alheamento e indiferença aos livros, doenças infantis e adultas do iletrismo. Esta proliferação de Clubes de Leitura, este crescimento exponencial e seguro de Comunidades de Leitores, é encorajador e saudável.

O Clube de Leitura da Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade do Fundão viajou no sábado dia 18, em direcção ao Porto, para encontrar aí o seu semelhante, o Clube de Leitura da Biblioteca Municipal da Maia. A Maia é presentemente um dos concelhos lusos que mais se urbanizou e industrializou durante os últimos cinquenta anos. Hoje tem 140 mil habitantes e um Fórum dotado de uma área coberta  de 13 mil metros quadrados. É aí nesse espaço enorme que funciona a biblioteca e o arquivo municipal. Com dois auditórios, este Centro Cultural sui generis exibe uma programação notável e vimos no cartaz não só a publicidade ao IV Encontro de Teatro Cómico como o anúncio a um grande evento de dança. Escultura, pintura, filmes, também são aqui mostrados frequentemente.

Felizardos maiatos que têm estes equipamentos e estas programações significativas! E entrámos neste labirinto de cultura e já nos esperava o professor Jorge Silva, uma pessoa dinâmica, sábia e de uma empatia prodigiosa, e que é o mentor de um grupo homogéneo de uma vintena de membros que ama os livros. A obra em questão, que os dois conjuntos traziam na mão, era “ Saramaguíada” de Pedro Guilherme-Moreira. E durante duas horas, o escritor, eu, como coordenador do grupo fundanense, Jorge Silva do grupo maiato, assim como seis elementos, três de cada areópago, discutimos com vivacidade a obra que é o terceiro livro do escritor portista. E no final, depois dos autógrafos, comemos um bolo delicioso , uma tremenda originalidade soberba: toda a confeitaria reproduzia, com uma fidelidade fantástica, a capa do livro de Pedro Guilherme-Moreira.

Acompanhado com um bom vinho do Porto, este primeiro momento de confraternização pura serviu para desenferrujar as línguas em todos os sentidos. Daqui partimos todos para o restaurante “ Pedra Verde”, muito próximo da biblioteca, onde numa grande mesa em L continuámos o convívio entre um bom lombo com castanhas, regado com vinho Monsaraz tinto e branco, e umas quase translúcidas sobremesas de gelatina. Aproveitei a ocasião para perguntar ao simpático escritor o tema do seu novo livro e ele falou-me de uma história ambiciosa que o habita e que diz respeito a um familiar seu escultor que viveu em Paris nos anos 20 do século passado. Desejei-lhe boa sorte para o projecto que ,na verdade, é um bom tema para um livro. Regressámos ao Fundão já noite ancianita. A Lara e a Matilde, as duas crianças que tinham ido com a sua mãe leitora, já dormiam. Parámos outra vez na área de serviço de Viseu e lembrei-me do senhor Almeida e da sua esposa que encontrara sete horas antes e que iam à Malafaia com uma excursão da Covilhã. Já no doce quentinho do autocarro, meditei nas ilações e nos ensinamentos que devemos tirar destes encontros de leitores para que os Clubes não enfraqueçam ou  não desapareçam , e se consolidem com firmeza.

Assim escrevi na mente, os possíveis dez mandamentos para que um Clube de Leitura esteja em boa saúde: 1) Escolher sempre um bom livro. 2) Ter no mínimo uma quinzena de   leitores participantes. 3) O coordenador do Clube deve ter competência e estar a par das novidades literárias. 4) Os leitores clubistas devem propor ao coordenador livros das suas escolhas.  5) Não é necessário que todos os componentes do Clube tenham lido o livro em debate. 6) Escolher entre 10 livros, 6 portugueses. 7) Deve haver intercâmbios e convites entre Clubes de Leitura. 8) Convidar de vez em quando um escritor português a vir ao Clube. 9) Ao menos uma vez por ano os leitores clubistas podem oferecer-se mutuamente livros da sua preferência. 10)  Fortificar os laços do Clube com visitas a casas de escritores, lugares que eles descreveram ou sítios onde nasceram.

Cheguei à Covilhã e despedi-me dos dezoito membros do nosso Clube. Por puro acaso a Dina, a directora da Biblioteca do Fundão, foi a última porque vinha nos primeiros lugares do autocarro. A noite covilhanense estava fria mas mesmo assim pensei, subindo a calçada,  no que a literatura nos traz sempre a todos : um quente reconforto, uma cálida satisfação.  E logo veio a seguir a frase de Umberto Eco que eu costumo citar: «Os livros não são feitos para acreditarmos neles  mas para os questionarmos. Quando pensamos num livro não devemos perguntar-nos o que é que ele diz, mas o que é que significa.» Livros, nossos mestres do tempo que vivemos!