Rui Pelejão
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Meu caro leitor. Diga lá, quantas vezes é que já sonhou com uma casa de campo? Quantos anúncios já viu? Uma quintinha ou uma casa de aldeia, com pomar ou horta, com tanque ou piscina, de xisto ou granito, com lareira ou salamandra?
Aposto que uma larga maioria de nós já sonhou com uma casa de campo, os outros não sonharam ou porque já as têm, ou porque o campo mais longe que foram foi ao Campo Pequeno.
Querer ter uma casa no campo é um sonho português, o quinto mais popular a seguir a ser um youtuber, a ser o Ronaldo, a ter um BMW ou a ter uma casa na praia.
Curiosamente o que não faltam são casas no campo para comprar. Basta calcorrear aquilo que eu chamo Aldeias Remax (ou Era, ou Fundanense), para ver dezenas de ruínas, palacetes ou quintas à venda e normalmente devolutas ou ao abandono.
Então se é um sonho português e há procura e oferta, porque é que elas não se encontram? Para responder a esta pergunta há que traçar os perfis dos “sonhadores com uma casa de campo”, para perceber o que se passa no lado da procura, e depois perceber a psicologia do vendedor e do seu intermediário, esse herói silencioso da santa paciência, que é o agente imobiliário.
Podíamos dividir as pessoas que procuram uma casa de campo no interior em dois grandes tipos – os reformados e as pessoas em idade ativa. No primeiro caso podem ser pessoas naturais ou ligadas à região, mas que saíram para ir fazer as suas vidas em Lisboa, Paris ou Toronto, ou então pessoas que se sintam atraídas por uma vida em contacto com a natureza, calma e mais pura.
No segundo caso, em idade ativa podem ser pessoas que querem mudar de vida, estar mais perto da natureza e investir em projetos ligados à agricultura biológica, à sustentabilidade ou a hotelaria. Podem ser portugueses ou estrangeiros, com ou sem ligação ao interior.
Há ainda uma procura crescente de casas de segunda habitação no interior, que aliás o Governo estimula com um sistema de incentivos fiscais à compra de segunda casa em territórios de baixa densidade.
Agora o que se passa do lado da oferta é no mínimo bizarro. Devido ao tipo de propriedade fragmentada e mal documentada que predomina na Beira Baixa, o que acontece é que muitos imóveis e propriedades estão ao abandono porque os herdeiros não se entendem nem nas partilhas, nem no preço de venda. O meu avó costumava definir a família como “um conjunto de pessoas unidas por laços de sangue e desavindas por questões de partilhas”.
Há belíssimas casas de aldeia por aí à venda há mais de uma década, porque os herdeiros não se entendem, ou não precisam. Muitos julgam que o palheiro do Avó Chico vale mais do que um T2 no Restelo ou que a velha casa brasonada com o telhado a caír aos bocados é uma espécie de Palácio de Buckingham das Beiras.
Ainda por cima, o crescente movimento de compradores estrangeiros a não regatear o preço, veio inflacionar o mercado, que não é mais do que aquilo que imaginamos que a nossa terra vale. Eu julgo que uma política de coesão territorial e de “repovoamento” do interior não pode passar ao lado de uma política de fomento à habitação e à compra de casa nestes territórios. E uma política que tenha a coragem de penalizar fortemente os proprietários que deixam as suas casas a caír de podres e as suas terras ao abandono. Ter uma casa no campo é um sonho português. Devia ser um sonho mais possível.
Eu próprio sonho com isso, com uma ruína de granito e uma figueira Um sítio para ouvir a velha música da Elis Regina:
“Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa plantar meus amigos
– Meus discos e livros e nada mais.”
