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Uma alma penada

Maria Antonieta Garcia

A tia Domingas vestia de preto; esta era a cor de fundo da saia e blusa, um tecido ruço, cheio de manchas acinzentadas, pardas, ora acastanhadas, ora azuladas, também grenás… Acusava muitos e prolongados lutos e o uso e abuso de fatiota que quem é pobre só deita fora, quando o pano rompe, esgarça, fica sem préstimo.

O lenço na cabeça, atado atrás do pescoço, protegia do frio e do sol, segurava os cabelos, escondia-os do ar, dos olhos e de línguas feiticeiras, viperinas ou piores ainda.

O chinó, às vezes entrançado, era obrigatório na sua condição social. Cortar o cabelo exigia coragem e atrevimento, atraía invejas e maus-olhados, obrigava a consultas de bentos e entendidos capazes de curar enfermidades que a Medicina desconhece.

Era estranha a tia Domingas! Falava pelos cotovelos, se encontrava ouvinte à altura. Sabia de cor e salteado todas as histórias das famílias da aldeia: as boas e as más. Gorducha e reinadia punha ao léu pecados e transgressões sobretudo as das moças mais novas. Os amores e desamores apimentados tinham mil faces secretas que a tia salvava do silêncio. Relatava os factos teatralmente, estremecendo em suspiros, sugerindo intervenções inimagináveis de personagens assanhadas a construir purgatórios e pavores.

– “Parece mal!” – Era refrão sempre disponível para mais de mil julgamentos morais. Parecia mal, porque iam a festas e porque não iam para não se misturarem com os outros; porque a roupa era demasiado curta, muito colorida para aquela idade, ou muito escura a armar ao sério; porque passavam a vida a bater com a mão no peito e não cumpriam preceitos religiosos e rezavam a oração do Pai Nosso só até ao “Venha a nós”; porque davam esmola e porque não davam… Porque. Porque. Porque.

A aldeia imersa em nevoeiro de juízos tecia, assim, os seus casulos simultaneamente protetores e sufocantes. Lugares de brandos costumes? Às vezes!

– Aquela? Se estas árvores falassem… Vá lá, no final teve sorte; o diabo não está sempre atrás da porta. Mas o que penou, a desgraçada! Toda a gente sabe.

– Sabe o quê, tia?

E ouvia mais uma narrativa de clandestinidade a afervorar o amor entre mais uma Teresa e um Simão nascidos em famílias desavindas… Em relação amorosa livre, não tardava crescia o ventre da moçoila, o futuro a mostrar-se imperfeito e temeroso. Ecos venenosos ressoavam. Valente era o rapaz capaz de enfrentar rumores, o malquerer e a maldição… Neste caso, depois de muitas peripécias, o moço venceu a desdita de um fado que algumas famílias apostavam construir pedra a pedra.

– Parecia mal?

Não! Afinal, a narrativa seguira a ortodoxia e ele e ela casaram (casou, honrou, como declarava a tia Domingas); escaparam ao refrão. Este era um relato igualzinho a tantos outros… Senhores do pecado, juízes sem tréguas condenavam à infelicidade muitos jovens ameaçando deserdá-los do nome, da honra, de courelas ao luar. Abdicavam da alma em contas a haver. Aferrolhavam os afetos e num mundo às avessas impunham a sua vontade.

Como era possível tamanha impiedade com aquele céu cheio de estrelas? Mas a narrativa continuou; até Harry Potter, aprendiz de feiticeiro, se intrometeu de rompante no texto. Uma estranha alquimia cruza os contos fantásticos. Na noite ecoou um miado ofensivo, um grito…

– Que susto!

– Falem no diabo e ele aparece! Aí está ela!

– Quem tia?

– A Gata! Vamos para casa. Esta daqui não sai tão cedo!

– Como?

– A Gata é uma alma penada, sabes! Culpam-na pelos males que aconteceram ao casal de que falei. Dizem que todos os dias a “senhora” lhes rogava pragas, descontente com o matrimónio. Algumas maldições foram pronunciadas ao levantar da hóstia, na missa. Agora cumpre a pena. Quando se fala na história vem à aldeia, vagueia por aí a gritar a assanhar-se, durante toda a noite… Já a viram transformar-se em pessoa. Igualzinha àquela que aqui viveu! Assusta toda a gente! Para que é que falei nisto? Não é a primeira vez que me aparece, a esbravejar feita doida! Aqueles olhos brilhantes enfeitiçam! Tenho um medo dela!

Eu ouvia e tremia como varas verdes. Só queria entrar em casa! O grito da Gata cinzenta soou uma vez e outra e outra e outra… Tapei os ouvidos. Com a tia Domingas subi a rua soprada pelo medo. A Gata cinzenta de olhos luminosos, amarelos, grande e gorda encheu-me noites e noites de pesadelos.

– Porque não vais com a tia ao chão? Perguntava a minha avó.

Os olhos abertos e acusadores da tia Domingas, o dedo em riste na frente do nariz, ordenavam que calasse. Os guinchos da Gata repetiam-se…

Na aldeia da Gardunha, era este tu-cá-tu-lá com as almas penadas; havia-as para todos os gostos. Algumas celebrizavam-se. Fantasmas de primeira água ora se mostravam às escâncaras, ora se ocultavam na pele de bichos assustadores…

Bofetadas, quedas, gritos, leituras até altas horas reveladas pelos sons de virar páginas, cortar lenha a horas estranhas, ou desatar aos gritos como aquela gata cinzenta ou-lá-o -que-era… eram manifestações descodificadas por quem sabia o real e o imaginário e as mil e uma maneiras de eleger crenças e soltar a língua e o medo… na aldeia cheia de gente… ainda com alma!