InícioOpiniãoOu tratamos do futuro ou ele tratará de nós

Ou tratamos do futuro ou ele tratará de nós

Nuno Francisco

Há lugares que não se desenham pela evidência. Há geografias que não se determinam  apenas através de um decreto que as põe no mapa com fronteiras vincadas, nascidas do “soar” de uma  “identidade” supostamente  inquestionável e inquebrantável. Há lugares que existem sem fronteiras  registadas e oficializadas e que escapam, à primeira vista,  àquilo que alguns ainda tentam encontrar  de  “identidade” comum, por mais difusa que seja, seja ela cultural ou geográfica, como causa exclusiva  para se poder chamar “região” a uma região.

De resto, olhando para nós, para a Beira Interior, a tal “identidade”, que poucos conseguem definir, sempre serviu para colocar mais obstáculos à ideia de uma “região”, sendo um dos principais contribuintes para a visão paroquial com que se insiste em olhar para o território. Naturalmente que, culturalmente, temos muito em comum, mas com a mesma naturalidade sobressai o óbvio: nesta Beira Interior  há  vivências distintas, diferentes contextos que nos moldam os dias  e, como tal, temos múltiplas tradições e abordagens ao quotidiano. E  ainda bem! A isto chama-se diversidade, pluralidade e riqueza cultural,  e nunca foi um problema, a não ser que, por um qualquer motivo idiota, se queira fazer disso uma questão.

Mas quem anda em busca de algo que cimente a ideia de uma região da Beira Interior, então pode começar a procurar por aqui: Um problema comum que ameaça o nosso futuro coletivo.Ora, percorra-se lá este vasto território, das margens do Douro às margens do Tejo, nunca perdendo de vista a linha de fronteira e vejam lá o que encontram.  Talvez aí se descubra, sem  grande esforço, nem dispêndio de energia, um poderoso elo de ligação transversal a toda esta geografia beirã: a necessidade de ponderar, reunir, planear e executar estratégias comuns para travar o grassante processo de despovoamento que se arrasta há longas décadas e que compromete o futuro social e económico do território. E este processo de repulsa demográfica não é causa “de”, mas sim, resultado “de”… E todos estamos, há muito, cientes das causas “de”. A consciência de uma região quanto à urgência em pensar o  futuro, deveria ser argamassa suficientemente forte para sustentar um edifício colaborativo, ainda que não formalmente constituído através de uma região da Beira Interior, tal como estava planeada no mapa da regionalização que foi a referendo em novembro de 1998 e que, inteligentemente, previa a união desta geografia com os mesmos desafios estruturais.

As boas vontades são, inegavelmente, algumas. O que falta é a definitiva perceção de desígnio comum que se traduza na conceção de estratégias  fundamentais  que se traduzam, depois,  em ações concretas. O que falta é a ação entre as indispensáveis forças motrizes políticas,  plataformas e organizações que brotam da sociedade civil e que muito têm a acrescentar às fundações de novas estratégias.  E isso está muito para além dos processos nascidos e alimentados no seio das autarquias ou das comunidades intermunicipais. Em última instância, aquilo que nos determina  como Beira Interior, a tal região que nunca se instituiu, é o que queremos do nosso futuro. Para que não seja o futuro a fazer de nós o que quer.