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Testemunho capital com libelo necessário

Manuel da Silva Ramos

José Pinheiro Fonseca acaba de publicar um livro que todos esperávamos: “ PIDE- Crónica de uma Prisão”. É uma obra que relata a sua detenção arbitrária pela PIDE em 1968 e a sua reclusão em regime de isolamento completo, no forte de Caxias, durante 75 dias. É uma obra forte, um testemunho capital para se compreender como operava esta sinistra organização policial moldada pelos vincos da Gestapo alemã. É também uma acusação necessária contra os seus métodos de tortura.

Sendo um dos pilares do regime fascista de Salazar, a PIDE reinava pelo medo, usando os informadores disseminados no meio da população, nas empresas, nas Câmaras Municipais e até no seio da religião. Mas este livro explica também como era a Covilhã nesses anos da década de sessenta em que a cidade estava isolada do mundo civilizacional de Lisboa e que vivia com grandes diferenças de classes sociais. Havia por um lado os industriais incultos e exploradores, uma classe média constituída pelos técnicos dos lanifícios ( debuxadores, contabilistas, tintureiros, afinadores ) e finalmente o grosso do pelotão que eram os 10 mil operários. É neste contexto, numa cidade dominada pelo dinheiro da indústria têxtil e em que os operários amordaçados  trabalhavam em condições penosas ( 3 500 são mulheres), que o jovem Pinheiro é preso no local onde trabalha – o Banco Nacional Ultramarino.

É o dia 5 de Janeiro de 1968. E durante dois meses e meio, esta estrutura sanguinária e torcionária tentará fazer confessar ao jovem covilhanense que pertence ao Partido Comunista. Ele negará sempre pois um inocente nunca poderá confessar o que nunca professou. Há precisamente cinquenta anos que isto aconteceu e o nosso autor narra isso em episódios que perfazem setenta e três páginas cheias de emoção, revolta, incompreensão e terror.

Ler esta escrita vivida fez-nos pensar de imediato em livros fundamentais que trataram o problema da prisão abusiva em termos pessoais transmissíveis: “Se Isto é um Homem “ de Primo Levi, “ A Espécie Humana “ de Robert Antelme e “ Papéis da Prisão” de Luandino Vieira. É um documento fascinante em louvor da memória inapagável. Eis um homem que se lembra que a sua juventude foi interrompida por uns esbirros da arbitrariedade que o ameaçavam em permanência com a tortura, a morte e a loucura. Dentro desta narrativa biográfica, com uma eficácia digna dos melhores romancistas, temos de salientar várias cenas que nos tocaram particularmente.

Por exemplo: quando o jovem isolado, na sua cela de Caxias, fabrica um avião de papel para poder passar o tempo que se eterniza entre desocupação constante e insónias nocturnas. Esse avião de papel, será lançado por fim  para o exterior através das grades e será o símbolo da « concreta e verdadeira liberdade.» Outra das cenas terríveis passa-se durante um dos interrogatórios finais nos calabouços da PIDE, na António Maria Cardoso. Privado de sono durante dois dias e duas noites consecutivas, Pinheiro vê a certa altura altas labaredas na sala onde se encontra.

Como  homem sensível e genuíno que é, o autor aborda também , com extrema franqueza,  um aspecto da personalidade humana que normalmente é ocultado: o prazer de ver sofrer o seu semelhante. Quer ele seja inimigo, adversário ou simplesmente um ser humano mais fraco ou infeliz. Pinheiro fala de « desconhecimento de nós próprios» mas esta faceta é comum a todo o género humano. É assim que o recluso  tem prazer ao ver esses momentos patéticos, em que durante uma chuvada torrencial,  um guarda fica molhado até aos ossos sem poder abandonar o seu posto.

Outro desses momentos de « mudança de personalidade», é quando Pinheiro que não é crente, se insurge contra a figura do Cristo ( de Almada) que ele vê através das grades do seu cativeiro. Chama-lhe « palhaço» , « aquele palhaço que pode tudo mas não me tira daqui!»  Só por estes dois aspectos sombrios da dualidade da alma humana se pode ver a craveira do  escritor que é José Pinheiro Fonseca. Finalmente, o jovem José é libertado a 20 de Março de 1968. E no dia seguinte ao da sua chegada à Covilhã, ele vai  imediatamente às Portas do Sol reconciliar-se consigo próprio, apreciando a soberba paisagem do vale da Cova da Beira. Assim voltou um inocente à sua cidade para gáudio dos pais e dos amigos mas não de todos os covilhanenses.

Passando por dois  espécimes da ignorância universal , o jovem Pinheiro ouve de um deles o seguinte comentário: « A este, não lhe tiraram lá a tosse!» A maldade humana é ilimitada, conclui o autor deste livro, axioma que podia ser corroborado por Solzhenitsyn, Dostoyevsky, Mandelstam, e outros aprisionados célebres. José Pinheiro Fonseca não parou de cultivar-se depois da sua prisão, continuou a ser um passador de cultura em jornais regionais e em grupos recreativos de bairro. A  sua tenacidade levou-o a formar-se em Direito e foi durante anos advogado com cartório na nossa cidade. Hoje está reformado e escreve obras de que se pode orgulhar.

Com outro historiador da Covilhã, António Rodrigues Assunção, publicou em 2014, em parceria, “ A Covilhã e a I Grande Guerra “, uma obra notável. Um dos livros apreendidos pela PIDE ao jovem José Pinheiro Fonseca foi “ O Atalho dos Ninhos de Aranha”, do grande Italo Calvino”. Quer isto dizer que a prisão e a arbitrariedade não conseguiram demover o bichinho da literatura que ele já tinha antes. E o facto de hoje ter publicado esta obra indispensável, misto de ensaio e novela, só prova que o triunfo da verdade conduz inevitavelmente à literatura. Eis uma obra que os covilhanenses devem ter em casa.