Terraplanagens

Filipe Sanches

Opinião

Nuno Francisco

Arde a Austrália. Hectares incontáveis consumidos pelas chamas incontroláveis alimentadas pela seca. Milhões de animais reduzidos a cinzas, fugas em massa, casas e vidas de dezenas de homens e mulheres ceifadas na marcha dos fogos que atravessam rios secos e que empurraram as populações para uma desesperada fuga rumo a um qualquer oásis de segurança. Arde a Austrália, como já arderam descontroladamente muitos outros pontos deste globo em agonia. Como vão arder muitos mais; num inferno plantado na Terra.

Os avisos são contínuos e crescentemente severos. Alerta-nos quem nos pode e deve alertar: Os cientistas, a ciência, a razão. Alertam-nos que estamos a chegar ao ponto do não retorno e que o legado que vamos deixar já à próxima geração é a de um planeta em convulsão climática, indomável, incontrolável, imprevisível, furioso. No meio de tanta evidência e avisos de que o futuro próximo será bem pior do que as amostras que já estamos a ter, quem devia ter a máxima responsabilidade para conter este processo entretém-se a navegar de nada em nada, em conferências cheias de boas intenções que não se tencionam implementar no imediato e com o boicote sistemático de uns quantos ignaros espalhados por por aí. As palavras não mudam rigorosamente nada e o fogo vai levando-as como leva tudo o resto.

No meio deste processo de aflitiva inação perante uma evidência gritante e um futuro dramático para a Humanidade ainda conseguimos ver coisas espantosas como a negação da evidência. Hoje, para muitos, a ciência parece ser a inimiga. Porque não se coaduna com a nossa visão, não se encaixa nas nossas expectativas e, sobretudo, não defende os interesses imediatos, sobretudo os económicos. Negam-se e questionam-se factos com a mesma naturalidade com que se pede a conta no final de um repasto. Descredibilizam-se cientistas, instituições científicas com uma facilidade inaudita. Quando a verdade não agrada, mesmo com a evidência a entrar olhos dentro, esboçam-se complôs, orquestrações mirabolantes e teorias da conspiração.

A casa arde, mas a ignorância prevalece e não estamos a falar de uns quantos que pelas grandes malhas da internet se vão entretendo uns aos outros defendendo que a Terra é plana e que um dia terão que organizar uma viagem qualquer até à borda do planeta. Isso não alcança sequer estatuto de ignorância, não causa danos coletivos e tem que ser encarado apenas com sentido de humor. A terraplanagem é outra e bastante mais assustadora: a da mente; a da consciência e da capacidade de distinguir e valorizar. No fundo, manter a capacidade de separarmos o lixo do fundamental.

Um charlatão qualquer, num vídeo manhoso na internet, a debitar teorias da conspiração ou infantilidades do tipo “como se pode falar em aquecimento global se está tanto frio?” nunca poderá ser credível. E muito menos colocado no mesmo patamar de um qualquer cientista. Mas para alguns é-o, como são outros, desde que vão de encontro à nossa visão pessoal. Hoje encontraremos sempre conforto para as mais bizarras das teorias, porque, procurando, encontraremos sempre alguém que as partilha e difunde. Isto não seria grave se não se perdesse a noção da divisão entre aquilo que é para levar a sério e aquilo que é simplesmente inábil e grotesco. Que esta terraplanagem que esbate as fronteiras entre a razão e a ficção não chegue ela também a um ponto de não retorno.