InícioOpiniãoTempo novo, esperança para a nossa Beira

Tempo novo, esperança para a nossa Beira

Miguel Nascimento

Entrámos num tempo novo, de renovação de esperança para a nossa Beira. É nele que depositamos os desejos de um futuro melhor para o nosso chão de sempre. Não esperamos que tudo se resolva com a passagem de ano e com varinhas de condão que se agitam entre as brumas ou as estrelas que cintilam no céu nestes dias de passagem.

Há muito que assistimos a desígnios e a promessas, especialmente os desígnios para “inglês ver” e as promessas não cumpridas! Há muito que nos habituámos a uma resistência firme que nos faz fortes mas cada vez mais desiludidos com as promessas de fazer dos de lá e, sobretudo, dos de cá! Ainda assim não baixamos a guarda da esperança. Essa morrerá connosco ou quando a Beira começar a dar os últimos suspiros por não ter gente ou não ter gente que cuide dela.

Precisamos, mais do que nunca, de gente que faça pela Beira, que goste dela e que por ela lute sem quartel. Sem esses “guerreiros” do presente e do futuro a Beira começa a perder fôlego e também toda a resiliência que a tem mantido a respirar à tona da água durante todo este tempo de abandono e de desconsideração. Os actores e protagonistas da Beira andam entretidos com as suas coisas, com os seus assuntos. Anda cada um para seu lado a ver se consegue safar-se no seu carreiro, ainda que devidamente legitimado.

Nesta demanda, como em tudo na vida, uns têm mais sucesso que outros e uns fazem mais com menos e outros ainda fazem pouco apesar de anunciarem aos quatros ventos que fazem muito. Cada um sabe da sua arte e todos seguem no caminho. Mas a verdade dos números é arrepiante! E a realidade das coisas já não é um espelho que apenas reflecte o desinteresse do poder central. A realidade da nossa Beira, por muito que nos custe, é desoladora, apesar dos esforços que ainda assim muitos fazem para remarem contra a maré.

Os incêndios vieram cobrir tudo de negro ou talvez, em sentido figurado, destapar o negro que estava por baixo do verde. Agora não podemos dizer que a nossa Beira pode “vender” uma paisagem deslumbrante a todos os que ainda pensavam investir aqui porque tudo o que a nossa vista alcança, aqui ou ali, está coberto por manchas negras que rasgaram o presente e o futuro do nosso território. Perante este golpe fatal que o interior sofreu há meses ficámos todos (os que por aqui resistem) sem forças e, ao messo tempo, o país ficou a saber que há uma parte do seu território que ficou para trás! O quadro é negro apesar dos anúncios, dos programas, das estratégias desenhadas e até da vontade (que se espera genuína) do poder central em relação à nossa Beira.

É tarde, muito tarde! A sangria populacional já aconteceu. O deserto vai avançando sem pedir licença. As casas vão ficando vazias nas nossas aldeias. Novos e velhos partem para longe. As empresas fecham portas porque não conseguem pagar tantos impostos, nem portagens tão absurdas, com tão reduzido perímetro de negócio! Precisamos de apoio, mais do que nunca! Não apenas por nós e pela nossa querida Beira mas pelo nosso país que, por ser tão pequeno em tamanho, não se pode dar ao luxo de condenar uma parte muito significativa do seu território ao chamamento das areias do deserto e dos ventos que sopram em paisagens vazias, cobertas de negro. É tempo da Beira acordar. É tempo de acordarmos, todos! E se não acordarmos agora morremos de vez.

Estamos no limite. Estamos na fronteira que separa o vazio da esperança. E essa esperança está em nós, mais do que tudo o resto! Precisamos, como escreveu Saramago, de nos levantarmos do chão! Mas, para isso, é necessário que cada um de nós cumpra o seu dever cívico e de cidadania, nem que seja apenas gritar alto para que se escute em Lisboa e Bruxelas que aqui, na Beira, apesar de tudo, ainda há gente que respira e que precisa de tempo de futuro para criar os seus filhos e para ser feliz com o que conseguir fazer e produzir na sua geografia de afectos! Sim, precisamos de gritar sem parar que as portagens devem ser abolidas porque são absurdas e que precisamos de uma reflorestação que se faça e que o desenvolvimento aconteça, de uma vez por todas!

Ou fazemos ou nos vamos embora! Ou fazemos ou morremos, de vez! Não temos mais opções! Por isso, temos que ir à luta pela nossa Beira e pela esperança que nos foge todos os dias dos dedos da nossa mão como se fosse areia da praia. Neste tempo novo, nesta passagem, a esperança está no nosso horizonte visual. Saibamos ir à procura dela lançando-nos ao caminho que se faz tarde!