InícioOpiniãoA Serra mãe vestiu-se de viúva

A Serra mãe vestiu-se de viúva

Maria Antonieta Garcia

Este ano um fogo louco varreu o chão interior. As terras ardidas vestidas de luto não podem suportar mais as fugas para o litoral. Portugal perigosamente debruçado sobre o mar perde resistência, desequilibra-se, esbanja tamanho. Ficamos tão pobres!

“ O fogo não tem respeito por ninguém!” – Indignava-se uma senhora. Com voz amarga, travestiu o fogo de demónio; as chamas crepitaram, rangeram, enlearam-se com o vento desaustinado, a perder-se, a cabriolar esculpindo labaredas cruéis… Fogo e vento em duelo de gigantes devoraram árvores, mataram, cremaram…

Na Serra mãe, lar de idosos previdentes cultivadores da horta, da vinha e do pomar, os protetores e adoradores da floresta meditam sobre o nada que ficou, sobre os anos necessários para o renascimento. Perdida a esperança porque sem tempo para ver o renovo, hão de expirar cedo demais. O pouco que tinham era a sua vida. Nascidos no mundo rural, amaram os chãos que amanharam com ternura e raiva. Respeitavam a Serra mãe que alimenta. Quando o amor era avaro emigraram, em demanda de melhores dias. Voltaram e deram-se à terra, sem saberem o mundo de imbecis, de psicopatas e de burlões que a ganância cria…

Quem desencadeou esta guerra tamanha, em território despovoado, sem gentes suficientes para defenderem lugares de memória? Dementes uns, mandarins sem freio a maioria… atearam agora e mais tarde, aqui e além, chamas nunca vistas a obrigarem a evacuação de aldeias. As casas ficaram para trás, anos de trabalho desbaratados… Os deuses não ouviram as preces e calaram-se, ou revoltaram-se em sodomas e gomorras blasfemas. Como e porquê cresceram os incêndios? Todos respondem, mas onde anda a inteligência? Que é das denúncias claras e sem medos? Por aqui o império cadaveroso da hipocrisia e da cassette vence.

A Beira está vestida de viúva. Sem forças para se levantar, olha aturdida o que resta de árvores suplicantes aos céus; beijadas pelas labaredas ficaram despidas de ramos, os caules queimados… As uvas rechinaram, chiaram… despediram-se até quando? E o olival? A horta? A fruta? Sobra o chão negro ou de cinza… Ardem e doem os olhos secos, secos, secos; ai, as penas, os pinheiros, os carvalhos, os castanheiros… ai as terras de novos Demos! Cheios de fome de futuro voltaram para acertarem a conta corrente com o Interior que levaram, sempre que partiram, agarrado às solas os afetos, a alma. De longe abraçavam lugares de memória, recriavam os aromas, os sons dos rebanhos, os bichos… Guardaram tudo à chave que, um dia, havia de abrir novos sonhos. Vieram para ficar e lavar-se, em solo sagrado, de anos de trabalho duro. Ao lado de outros nunca desistiram da serra mãe. Erguiam a esperança, respondiam com a força de jovens crentes na sua força, na dos filhos, nas promessas de mudança sempre alimentadas…

E agora? Que é dos filósofos, dos democratas, dos poetas? No jogo do empurra quem lidera? Sufoca-se com o fumo, respira-se mal no nevoeiro da irresponsabilidade. Abram as portas. Num interior esgaçado de feridas e à deriva, quem fica? Talvez um tocador de viola beiroa e os adufes das mulheres ainda encantem as serenatas de amor, as romarias… A Beira e os cavaleiros da Távola redonda hão de continuar a demanda de um Graal salvador! Amantes das palavras de Eugénio de Andrade, de Albano Martins sabem que as palavras que dançam nos céus de veludo anunciam um vinho novo mesmo se os cachos de uvas se abrasaram em rebuliço, no alvoroço aceso desde a alvorada à noite.

Na Serra mãe, as pedras esperam a água que apague nódoas, o negro e o abandono; por ali ainda vagueiam seres reais e imaginários em espaço de contemplação, de dó e de orgulho. Vadiam num chão foco de iniciação a mistérios da natureza. Ainda se veem homens e mulheres. Idosos. Que é das crianças?
Apetece seguir o guardador de rebanhos (Alberto Caeiro), e acreditar que novos pastores metáfora, em comunhão com a natureza, hão de amar infinitamente este pedaço de chão… A serra mãe vestiu-se de luto, mas juro que vi soltar-se a alma das pedras e derramar-se pelo chão, com uma seiva que pede jornadas de amigos e um calor que a serra dá, só a serra dá…

De alma ao léu, vamos semear de boca em boca, em linguagem solta, desabrida, que a Beira se vestiu de viúva, ergueu os ramos frágeis aos céus, e suplica Vida! Nós declaramo-nos culpados de amar este chão.
Seguimos Almada Negreiros e afirmamos: as palavras que hão de salvar a Gardunha foram todas ditas: falta salvar a Gardunha…