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Sem tempo para pensar

José Páscoa

Estamos a viver cada vez mais rapidamente, sendo que la Palisse não diria melhor. Não é o tempo que passa mais depressa, é a nossa perceção e reação à passagem do tempo que é mais rápida. Esta é também uma consequência da ubiquidade da rede, a chamada internet das coisas toca-nos a todos. É hoje possível caminhar pela Serra de Estrela e estar ligado, por telemóvel, a qualquer ponto do mundo. Por outro lado, a era dos automóveis sem condutor está a aproximar-se vertiginosamente das nossas estradas.

Esta aceleração também se deve à globalização, foi esta que criou as teias de interdependência económica que promoveram a ascensão de novos ricos, intimamente ligada a uma espiral de dívida, tanto privada como pública. Para alimentar esta aceleração extraíram-se recursos naturais de forma descontrolada, com a consequente libertação de carbono para a atmosfera, contribuindo assim para as mudanças climáticas que atingem todos os países. Ainda assim, esta globalização também permitiu um salto enorme na qualidade de vida de milhões de seres humanos, algo que o mundo nunca tinha testemunhado.

Mas este é também um tempo onde o poder chegou onde antes nunca tinha chegado. O impacto da informação recolhida pela wikileaks atinge os mais poderosos sem exceção. O poder sempre foi transitório e neste mundo acelerado, fortemente escrutinado, também os lideres mudam rapidamente. Este escrutínio público descentralizado, provocado pela facilidade de transmissão da informação, é hoje possível de uma forma inimaginável no passado. É também por isso mais suscetível a manipulações colossais. Os computadores em rede monitorizam tudo, desde o leite colhido na ordenha de uma vacaria à televisão que temos na nossa sala.

Como com todas as mudanças tecnológicas há um lado bom e outro mau. Esta facilidade de transmissão da informação também tem impacto na democratização da produção de bens, sendo a sua produção de forma distribuída um exemplo paradigmático. O impacto que as impressoras 3D terão na nossa vida ainda mal se vislumbra. Mas não há dúvida que será radical. E a China, a grande produtora mundial, muito sofrerá com isso.

Num mundo cada vez mais veloz também as pessoas, as regiões, e os países têm de aprender a ser mais rápidos, inovando mais rapidamente para se adaptarem melhor às mudanças. Têm ainda de assumir a responsabilidade de ajudar os que ficam para trás, as baixas provocadas pela mudança, e aprender a pensar e a contemplar em tempo acelerado. O ser humano é, por natureza, altamente adaptável e terá de o fazer nas três dimensões que movimentam o mundo moderno: a tecnológica, a do mercado global, e a das mudanças climáticas.

Os sistemas biológicos mais resilientes são os que mais rapidamente se adaptam à mudança. Não vale a pena lutar para desacelerar o mundo, temos é de ser ágeis e aprender a viver a esta alta velocidade. Os portugueses sempre foram adaptáveis, pelo que estamos especialmente preparados para navegar neste planeta que roda a alta velocidade. Este pensamento otimista não significa que podemos dançar alegremente no meio deste furacão de mudanças. Significa que, como com qualquer problema, é importante saber onde estamos para podermos definir como e para onde vamos.

Mas as mudanças tecnológicas continuam a acelerar e não abrandam. Todos os dias surgem novas inovações disruptivas. Estas acontecem quando uma pessoa, empresa, região, ou país fazem algo de uma forma mais inteligente, tornando todos os restantes obsoletos. Não temos opção a não ser adaptarmo-nos, assumindo uma forte auto-motivação.

Num mundo em rápida mudança é importante sentirmos o chão firme, pois necessitamos de um suporte que nos dê confiança. Uma referência no meio do furacão. Esse apoio vem da comunidade onde vivemos. Ao participar e ao partilhar a nossa vida com a comunidade, recusando o isolamento, asseguramos a base de que necessitamos para sobreviver neste mundo distópico que nos apanha todos os dias. Neste Natal temos a oportunidade de ter tempo para pensar, o que pode ser útil para, em lugar de ameaças, ver oportunidades neste tempo novo.