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O segundo semestre de uma universidade

Nuno Francisco

Primeiro dia do segundo semestre. São milhares de vidas  que se voltam a  cruzar dentro de uma universidade no coração da Beira Interior. Alunos e professores   caminham por estes corredores, no regresso a uma rotina que marca há décadas uma cidade e uma região. Olhando para esta renovada efervescência é difícil não pensar no que esta instituição fez e continua a fazer por uma das regiões mais empobrecidas e despovoadas do país. Também não é possível não pensar enquanto se caminha por esta academia que tudo isto não nasceu de geração espontânea, mas de uma soma de decisões políticas e cimentadas pela ação de tantos homens e mulheres que ao longo de mais de três décadas habitaram este espaço. Começou o segundo semestre na Universidade da Beira Interior, uma das raras instituições que ostenta orgulhosamente o nome de uma região, de letra firme na fachada, como exemplo de uma abrangência e ligação efetiva e afetiva a um vasto território, longe de uma óbvia vassalagem à ideologia e satisfação toponímica de ego de  paróquia.

Se olharmos para aquelas que são as principais âncoras do território, esta sobressai como  incontornável, apesar de ainda estar por fazer uma profunda análise sobre o que esta universidade sedeada na Covilhã fez, não só pela cidade onde tem as suas fundações, mas por toda a região que exibe no nome. Essa história será, por certo, escrita um dia, mas, para já,  não deixamos de ir ao óbvio e à evidência: o forte  dinamismo social e económico que imprime, a capacidade de produzir conhecimento, a oportunidade que oferece a milhares de estudantes da região de optarem por fazerem os seus estudos superiores no seu território de origem. O que é fundamental reter é que esta foi uma aposta estratégica num território frágil que se revelou fundamental para o seu desenvolvimento, impulsionando uma série notável de dinâmicas adjacentes. Mais de 30 anos depois, a braços com um problema de subfinanciamento crónico e ainda e sempre na primeira linha do embate do despovoamento, a UBIestabeleceu-se em posições de destaque em rankings internacionais das melhores universidades do mundo e conseguiu,  no último ano, alcançar o  maior número de alunos de sempre.

Importa reter que este é um exemplo que deve perdurar no espírito  de todos, não apenas pela resiliência de uma universidade em contexto adverso, mas pelo que ela representa, não só para a região, mas para quem gere o país a partir de Lisboa. Quando se deixar de olhar para o pouco  que é  investido no Interior como um frete ou um favor, talvez se compreenda melhor que as decisões inteligentes – que nunca foram sinónimo de despejar dinheiro sobre os problemas –  são aquelas que permitem, três décadas depois estar a recolher os frutos e que continuam a alimentar uma fundamentada esperança. São aquelas que alteram paradigmas de cidades e engrandecem as regiões. Uma universidade que por estes dias voltou à sua rotina de ensino é esse sinal de inteligência: o de dar uma oportunidade a uma cidade e a uma região de se apropriarem de uma rara decisão  de planeamento verdadeiramente estratégico  no Interior e demonstrar que dessa semente se fizeram tantos frutos de esperança.