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Ricardo Runa no Casino Estoril

Manuel da Silva Ramos

A noite estava fria e quando saí do comboio as luzes do Casino Estoril reconfortaram-me logo. É que ia ver a última criação do covilhanense Ricardo Runa e do seu Kayzer Ballet. Admiro este jovem teimoso mas cheio de razão que tem um magnífico sonho artístico na cabeça e cuja escola de dança na Covilhã, na rua Marquês d´Ávila e Bolama, é uma horta de talentos. E o seu Kayzer Ballet, com jovens bailarinos de muitos países, é um trampolim de afirmação nacional e internacional. O auditório, onde o espectáculo se ia realizar, jorrava funebridades de cabaré: o palco era  negro e negras eram as paredes e as cadeiras estavam emolduradas de vermelho.

Íamos para o desconhecido sem programa, num  lugar datado que parecia dos anos sessenta do século passado, mas quando as luzes surgiram e uma coluna de fumo envolveu no palco Ricardo Runa, de fato e livro na mão, a fascinação foi total. Estávamos a ser convidados para o Hotel Paraíso, um local onde íamos ser felizes. E fomos durante quase noventa minutos, em que esquecemos as máquinas tilintantes e a roleta, a nossa vida, a noite glacial, a chiadeira do comboio suburbano, o metro tardio, tudo. É este o poder da dança de nos dar a conhecer um mundo fascinante em que estamos constantemente a entrar.

Quase nunca acreditamos. Mas se nos deixarmos levar pela sua magia e pela arte do ballet ganhamos quinhões de sonhos que só a nós pertencem. É por isso que o corpo tem uma linguagem universal, erótica, sensual e cheia de beleza fervilhante. Estamos pois à porta do Hotel Paraíso e entramos pela força das palavras de Ricardo Runa: « Aqui a vida incerta tem morte certa e não há tempo e onde os sonhos se podem realizar, é só uma pessoa acomodar-se. No primeiro andar há insónias e almas penadas a vaguear. O eco está presente. No segundo, amigos imaginários satisfazem todos os caprichos. E no terceiro andar todos os sonhos nos possuirão. No jardim paradisíaco, o clima é ameno. Há abundância de alimentos e recursos. Não há guerras, doenças, nem morte. A vida é a recompensa após a morte para as almas que aqui chegam. Aqui os sonhos tiram todas as dores. Todos serão bem-vindos…»

Está pois plantado o décor e a história e é a partir deste belíssimo canevas que toda a fantasia do espectáculo se fará. E os personagens entram. São belos e jovens. E a atracção absoluta logo se instala. São movimentos bruscos que enaltecem e põem o corpo todo em combustão e que deixam sempre um rasto de beleza. Uma beleza que transparece em todos os passos e se alimenta até à lava. O bailado ora se faz no ar, no chão, na correria incessante à procura do sonho. Na segunda parte do espectáculo, os bailarinos despem-se da ganga do cotidianamente e voltam mais puros. De pele e osso. Eles, de tronco nu e calças roxas, elas de renda erótica. Um ar edénico envolve-nos. Estamos mergulhados no reino paradisíaco onde os sonhos se sucedem em cascatas contínuas. Tanto o bailarino mais alto ( o francês Théo Marechal) como o seu comparsa de cabelo negro ( o espanhol Pau Piqué) fascinam-nos pela presença majestosa dos seus corpos belos que ficam mais belos ainda quando se põem em movimento.

Quanto às bailarinas, tanto a incrível loira ( a sueca Julia Bengtsson) que junta à beleza do seu corpo os seus longos cabelos surpreendentes que pertencem também à dança e participam nela como peça fundamental no processo do nosso natural enfeitiçamento, como a lindíssima morena ( a escocesa Evelyn Blue), passeiam uma gracilidade sublime de movimentos. Ricardo Runa é o mestre, o desenhador gestual, o árbitro e o coreógrafo, que reina neste quarteto, sempre imperial, nunca impondo nada mas participando na divisão do sonho. Importante e fundamental é a música lancinante que nos magnetizou a todos, ela é de Stravinski e de Vivaldi. Esta é sem dúvida nenhuma a companhia mais erótica que eu vi nos últimos tempos em Portugal pois alia um bailado muito sensual com alguns momentos próximos da acrobacia física mas, diga-se,  todos os instantes possuem uma beleza subjacente.

Entre técnica apurada e invenção do corpo, Ricardo Runa construiu uma narrativa que é mais que dança, teatralizando-a por vezes. Isto dá um tempo de recuo a quem assiste e é um convite a ir mais longe. Mas há quem não adira e não compreenda que este género de arte lança apostas aos espectadores. Foi por isso que, no final, ouvi duas tias de Cascais, comentar: « Este ballet é para pessoas com muita sensibilidade!» dizia uma e a outra respondeu-lhe: « É relaxante!» Não viram a arte. A beleza dos corpos. A poesia dos corpos inventando a vida. Não viram o árduo trabalho que há por detrás deste espectáculo. É aqui que reside o extraordinário mérito de Ricardo Runa. Criar beleza sem mostrar a oficina. Parabéns, Ricardo, por estes minutos de estonteante beleza! E tudo o que estás a fazer na Covilhã, desde a fundação do Kayzer Ballet em 2014, é um primor de inteligência criativa e de pedagogia!Tu que foste o bailarino principal do Gwinett Theater em Atlanta, podias ter escolhido ficar nos Estados Unidos e fazer aí carreira mas escolheste a tua cidade para exerceres nela uma didáctica do sonho que é já uma referência internacional. Jean Cocteau dizia que a dança « era a linguagem internacional na qual cada um exprime a singularidade do seu estilo.» Ricardo Runa está a fazer isso na Covilhã. Está no bom caminho.