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O regresso da pintora aquática

Manuel da Silva Ramos

Ao regressar à sua cidade depois de vários anos de ausência e ao apresentar uma retrospectiva com perto de oitenta obras, Teresa Gaspar cria um acontecimento cultural. Na verdade, e isto teremos sempre de o frisar, a fragilidade desta mulher é aparente pois ela é um verdadeiro rochedo de energia, de vontade e de criação artística. Vejam só. Nascida na Covilhã numa família de artistas (a sua mãe pintava, o seu irmão desenhava), tirou em 1988 o curso de cabeleireira, profissão a que estava destinada. Porém, um grave acidente de viação viria destronar este seu sonho.

Começou a pintar e entrou para a Carveste onde esteve dezassete anos à frente de uma loja de vestuário. Depois, há mais ou menos uma dezena de anos, mudou outra vez de rumo e foi para o Douro depois de ter adquirido com o marido uma quinta a quatro quilómetros de Freixo de Espada à Cinta. Ao gerir esta pequena propriedade, a 700 metros do rio Douro, com vinha, olival e amendoal, Teresa Gaspar recomeçou uma nova vida a partir do zero. Hoje ama ardentemente esta aventura que exige muito esforço, dedicação e perspicácia para lidar com os trabalhadores temporários que escasseiam.

No seu pequeno atelier, na terra do grande poeta Guerra Junqueiro, ela pinta quando não tem preocupações ou na altura do ano mais propícia a isso que é o tempo a seguir às vindimas, em Novembro. Pinta em silêncio, quando o silêncio da sua Quinta das Fragas a invade. Trabalha pois muito nesse tempo em que o vinho se repousa ou então faz , noutras épocas do ano, uma criação a prestações. Para esta exposição, patente na Tinturaria da Covilhã até ao dia 7 de Janeiro, a artista confessou-nos estar contente pois conseguiu conciliar o seu trabalho artístico com a faina na quinta.

Lembremos em guisa de parêntesis que o imenso pintor Jean Dubuffet, o defensor da Arte Bruta, foi durante muitos anos negociante de vinhos. “ Sentires e Serenidades” é o título da mostra de Teresa Gaspar onde ela se revela e nos revela o seu grande talento. Autodidacta como Dubuffet, Gauguin, Van Gogh, Bacon, e muitos outros pintores consagradíssimos, a pintora covilhanense tem uma oficina muito própria e uma temática cada vez mais direccionada para a paisagem mental aquática. « Só há bem pouco tempo me apercebi que em todos os meus quadros havia água» lança-nos ela. Quer isto dizer que Teresa Gaspar pratica uma pintura duplamente espontânea, de automatismo puro.

Primeiro pega nas tintas e na espátula e combina as cores. O pincel raro, só entra para esbater, às vezes até esbate com os dedos. Segundo, toda a sua pintura é mental pois só no final ela encontra o resultado inesperado, às vezes uma genuína surpresa. Foi o que aconteceu aqui todo ao longo desta apresentação pictórica, construída a pequenos ou grandes golpes de espátula, em que os quadros antigos estavam diante dos mais recentes.

Quadros antigos envolventes e intensos, onde reina uma explosão de cores à maneira de Bissière, Vieira da Silva ou Cargaleiro, e definidos a grandes golpes de espatulados vermelhos intensos ou rubros incandescentes, castanhos totais e amarelados grosais. Esta fase dois com telas como “ Solstício” ou “ Penumbra”, mais elaboradas, segue a primeira fase em que a pintora já abstracta se apresenta na sua simplicidade singular com pouca espátula mas com um posicionamento fantástico de cores. São exemplo disso o quadro “ Nascimento “ de 2006, o primeiro quadro com esta técnica, e “ Renascer” onde a técnica da artista se esmera.

Mas é o quadro “ Rebeldia” que vai fazer a ponte entre estas duas fases, chamemos-lhes descoberta e explosão, e a actual, a terceira, que é uma alquimia suave das duas primeiras. Embora recente, este quadro magnífico onde se adivinha já um pouco a figuração futura, é um magma de cores violentas que pode funcionar como um corte radical com o passado. É uma tela em que um barco rasga com fúria  o leito de um rio  até a água se revoltar por sua vez. São golpes espatulados de um vermelho cru, mas também púrpuras, roxos, azuis escuros e laranja. Mas é na sala principal, à esquerda de quem entra, entre o primeiro e o segundo pilar, que há uma sucessão de onze novos quadros onde o grande talento de Teresa Gaspar explode: é uma pintura de total serenidade, mental, fantástica, com cores pálidas, onde predomina os tons cinza, terra, azulados aguados e cinzentos púrpura.

Tanto em “ Neblina” ( tranquilos barcos num mar  calmo de nevoeiro) como no inquietante “ Mare Nostrum” ( um naufrágio de vários barcos num mar tranquilo). Só por esta parede merece ser vista esta exposição  pois Teresa Gaspar adquire aqui uma serenidade que lhe faltava e que é talvez agora um reflexo do seu quotidiano profissional. Emoção e serenidade, eis o que a pintora nos lega nesta mostra que nos desvenda sinceramente o seu terceiro período artístico. Na forma, entre a Arte Bruta e o surrealismo ; no fundo, entre o abstracionismo explosivo e o figurativo lírico. A covilhanense navega entre estas duas águas e é urgente ver esta presença pública de alguém que encontrou uma tranquilidade interior.

Esperemos que em 2018 a primeira produção de vinhos da Teresa Gaspar seja um sucesso, com as castas Tinta Roriz e Touriga-Franca, como o é esta exibição individual. Teresa Gaspar ainda não pintou o rio Douro e as paisagens soberbas desta região que é Património da Humanidade. Mas temos a certeza de que a sua propensão aquática a inclinará para isso, para o elemento líquido que é a base da alquimia da sua pintura. Pois como a vida e arte estão ligadas, também a serenidade e a força da criatividade almejam a um todo.