InícioOpiniãoUma região e as suas circunstâncias

Uma região e as suas circunstâncias

Nuno Francisco

1 – A noite eleitoral traduziu-se numa ampla jornada de confirmações na esmagadora maioria dos concelhos da Beira Interior. Salvo raríssimas exceções, do Douro ao Tejo, quem liderou os executivos autárquicos nos últimos quatro anos recebeu nova prova de confiança, algumas delas com reforços de votação tão notáveis quanto inesperados, como foram os casos ocorridos na Covilhã e em Penamacor. Interpretar, pois, as razões dos leitores será sempre a próxima tentação num cenário de pós-eleições. O “achismo” de quem lê sempre exemplarmente as razões dos eleitores como se de uma consonância transversal e universal se tratasse é uma evidente falácia.

Leem-se os resultados, que são óbvios, mas as razões para que eles ocorram são muito mais complexas do que a mera contabilidade final. Há, nestas autárquicas, como sempre houve, realidades demasiado específicas que começam e terminam nas fronteiras de cada concelho, contextos políticos, sociais e económicos.Contextos de repulsa e atração pelas candidaturas e pelos próprios candidatos, contextos ditados sempre pelas relações de proximidade entre os eleitores e os candidatos.

Tudo isto submerge num caldeirão, onde muitos pesos e os contrapesos definem a decisão que a esmagadora maioria dos eleitores terá já tomado bem antes do dia do voto. Também por isso, há realidades eleitorais onde é absolutamente notório que são os candidatos que levam partidos ao colo rumo às vitórias, bem como nessas realidades ganham terreno os ditos “independentes”, que conquistam cada vez mais câmaras municipais e, sobretudo, juntas de freguesia. Porque, no fundo, é disso que se trata: decisões que resultam de complexos processos que a proximidade cria e alimenta.

Daí que custe acreditar que alguém ainda creia que a decisão de cada um dos eleitores toma seja menorizável a uma direta proporcionalidade em função do número de apertos de mão que recebem dos candidatos, à quantidade de propaganda eleitoral com que se entope a caixa de correio, ao tamanho dos outdoors expostos nas cidades, vilas e aldeias ou a quem grita mais nos debates. Não, as coisas não funcionam assim, como, aliás, é fácil de constatar.

2 – No último domingo foram eleitos os representantes dos cidadãos da Beira Interior para as câmaras municipais, juntas de freguesia e assembleias municipais. Afirmar que o futuro próximo da região passará pela ação de todos eles poderia ser um lugar comum, se não fosse a mais pura das realidades.Isto, por várias razões, mas, para já, basta a primeira delas; a que sustenta o edifício da cooperação regional em pilares de evidente fragilidade. Os problemas de uma freguesia ou concelho serão sempre problemas que terão os órgãos próprios eleitos para os tentar resolver ou para serem devidamente responsabilizados pela ausência de soluções.

Mas as grandes questões que definem o fundamental da nossa vivência necessitam de decisivos entendimentos regionais. A realidade continua a ser revelada na acentuada quebra demográfica e nas dificuldades de captação de investimento público e privado. A não ser, claro, que se ache que tudo isto é normal, inevitável ou menos relevante do que prementes preocupações sobre o asfaltamento de uma estrada ou onde se fará uma nova rotunda…