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O nosso reflexo no espelho

José Páscoa

Como diz José Gil habituámo-nos a pensar, a pensar e a gostar de pensar, e a julgar até que basta pensar para que tudo se resolva. Mas não chega pensar, é preciso agir. Em início de ano é natural, desejável até, estabelecer as metas para os próximos meses. À comunidade exige-se o estabelecimento de planos a mais longo prazo.

Um espelho é um objeto com muitas qualidades. Ele permite olharmo-nos nesse espelho, observarmos o reflexo do nosso eu, o que somos, e o que fazemos ou fizemos. A nossa imagem carrega todo o peso das nossas ações e omissões. Num ano de incêndios todos aceitámos o papel de treinadores de bancada, todos pensámos e criticámos, poucos construímos. A solução que agora nos chega é a da compra do silêncio. Investem-se alguns milhares de euros na recuperação de casas, distribuem-se outros milhares de euros a uma população envelhecida, e apoiam-se algumas dezenas de empresas locais em investimentos cirúrgicos. No final tudo se manterá como dantes, comprou-se o silêncio dos que vivem no interior esquecido. Não há uma estratégia nova de desenvolvimento, não há um plano de desenvolvimento a 10 ou 20 anos que defina uma mudança estrutural, ou um salto qualitativo.

Outra das qualidades do espelho é a de servir de retrovisor. E somos verdadeiramente exímios a olhar por ele. Quando usado como retrovisor não vemos nele refletida a nossa imagem, apenas observamos a nossa vizinhança. E esse é o momento em que invejamos e cobiçamos outros territórios, cidades e países. Desejamos o que os outros têm, cobiçamos o seu desenvolvimento, também o queríamos aqui. Heisenberg, no seu célebre princípio da incerteza, apresenta uma dialética semelhante. É que ao olhar a vizinhança, usando o espelho como retrovisor, não conseguimos olhar-nos a nós mesmos. Esse impedimento limita a nossa capacidade de assumir uma quota parte de responsabilidade. Além de pensar é importante agir. Cada um de nós, além de se preocupar com o bem-estar pessoal e da família, tem de definir uma agenda de apoio ao desenvolvimento da sua cidade, vila ou aldeia. Todos exigimos algo à sociedade, mas quanto estamos dispostos a dar à comunidade?

Um espelho tem ainda a qualidade da sedução. Nas metamorfoses de Ovídio conta-se o mito de Narciso, o que apaixonado pelo seu reflexo morreu de amores. E tantas vezes isso nos acontece, incapazes que somos de afastar o nosso olhar do espelho. É fundamental que olhemos para lá do espelho. É importante olhar para o passado e o presente, mas muito mais importante é perscrutar o futuro. Esse futuro é uma construção de todos enquanto comunidade.

Não podemos continuar à espera de um D. Sebastião, outro mito. A invenção do futuro depende de cada um de nós, de todos os que habitam este território. Em todas as nossas decisões e contribuições para a sociedade temos de assumir uma visão estratégica, de longo prazo. O futuro desta terra depende do que formos capazes de pensar e construir por nós mesmos enquanto comunidade.

O assumir de objetivos de longo prazo não é impeditivo de ter outros de curto prazo. Há até um que é fundamental assumirmos com a maior brevidade. É crítico transmitir aos nossos filhos e jovens a importância de continuar a habitar este território. É tão triste ver pais e familiares a incentivar os seus filhos a deslocarem-se para longínquas cidades, como se só nessas houvesse futuro. Essas são atitudes de quem conhece pouco do mundo. Quem viajou abundantemente, e conhece muitas outras paragens, reconhece nesta nossa terra qualidades invejáveis onde os nossos filhos terão um futuro confortável e digno. Se assim não fosse, porque nos haveríamos de preocupar com o seu desenvolvimento? Quanto mais conhecemos do mundo mais reconhecemos as qualidades do chão que pisamos. Um espelho é muito útil.