InícioOpiniãoReféns entre a estupidez tolerante e a intolerância à estupidez

Reféns entre a estupidez tolerante e a intolerância à estupidez

Paulo Duarte

Em jeito de provocação, há dias questionei numa rede social se a sociedade não se estaria a tornar estupidamente intolerante. A resposta não se fez esperar e alguém propôs a hipótese alternativa de estar “intolerantemente estúpida”, o que me fez pensar.

Aparentemente está na moda ser-se intolerante. É intolerância à lactose, ao glúten, aos ovos, ao marisco, ao ar puro, ao convívio, à raça, à condição social ou ao simples direito de ter convicções religiosas, políticas, filosóficas ou ideológicas. Contudo, o que é realmente extraordinário é verificar como, paradoxalmente, a mesma sociedade estupidamente intolerante e intolerantemente estúpida é também imbecilmente tolerante.

Um problema vasto que atinge globalmente a sociedade nas suas instituições e órgãos basilares, dado que, os responsáveis máximos por dar o exemplo parecem ter ideias confusas a respeito da moral, ética, direitos, deveres e justiça. Exemplo disto é o recente conluio entre os eleitos pelas pessoas para isentarem os partidos políticos do (quase) único imposto a que estes estão sujeitos. Em contrapartida a generalidade da população é fustigada por impostos, taxas e taxinhas. Chama-se a isto decidir em causa própria. Uma regalia exclusiva para alguns que devia estar vedada a todos. Quando se é condescendente com uma situação destas algo está muito mal.

É verdade que o fenómeno da indignação assume hoje contornos diferentes, em parte fruto do uso generalizado das redes sociais. As tradicionais manifestações de rua foram parcialmente substituídas por movimentos coletivos de indignação nas redes sociais e em petições públicas on-line. Todavia, o que poderia ser visto como uma forma de proporcionar mais poder às pessoas está a revelar-se um mecanismo de distração, controlo, manipulação e contenção da legítima indignação popular. Depois de descarregarem as frustrações e a raiva em publicações e comentários repletos de insinuações e insultos, as pessoas, aliviadas e com o sentido do dever cumprido, lá seguem serenas para o tranquilo regaço do sofá.

Uma sociedade que se inflama pelas decisões do vídeo-árbitro, irrompe em defesa da igualdade de direitos entre o que, naturalmente, sempre foi diferente, mas fecha os olhos aos maus tratos a idosos ou às más condições de vida que, de acordo com o EUROSTAT, ditam que apenas 1 em cada 4 portugueses consiga manter a casa quente “de forma adequada”. A mesma sociedade que assiste ao país ser devastado por incêndios ano após ano e testemunha, mansa, a recusa em tornar público na íntegra o relatório do grupo de peritos que investigou as causas da catástrofe sem se indignar de forma digna. É esta também a sociedade que desvia o olhar das notícias que mostram o caos em algumas unidades de saúde, dos veículos parados por falta de pessoal ou seguro, das alegadas relações escaldantes entre o setor público e privado. É o retrato de uma sociedade domesticada, com a capacidade de indignação confinada ao mundo virtual e que apenas timidamente se manifesta contra os atos de gestão danosa de banqueiros, pagos por todos com dinheiro público ou através da cobrança de comissões bancárias por tudo e por nada. Mas não pensem que é um exclusivo de Portugal, pois basta observar a trapalhada do pós-referendo ao Brexit ou o estardalhaço provocado pela presidência Norte Americana.

É a imagem de uma sociedade manietada, estupidamente tolerante com promessas vãs. Uma sociedade que sorri quando se proclama a necessidade de repovoar o interior, mas fica calada quando não se tomam medidas concretas de descentralização, de redução do preço das portagens que agravam o peso da interioridade, quando se pactua com o encerramento de serviços básicos, ou se mantém uma instituição vital para o desenvolvimento local, como é a Universidade da Beira Interior (UBI), asfixiada por um subfinanciamento crónico ao qual ninguém parece ter coragem para por termo. Isto sim, deveria indignar-nos a todos. Perante tanta sem-vergonhice, a tolerância estúpida ganha terreno e nós vamos ficando cada vez mais estupidamente intolerantes com aquilo que não devíamos ser.

pduarte@gmail.com