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Rankings e território

Nuno Francisco

Os rankings são importantes  para nos mostrar como é que uma determinada realidade se posiciona perante nós. Pegando em dados universais, rigorosos e transversais, ordena-se essa realidade segundo o desempenho, seja qual for a área que esteja em análise. A tentação de hierarquizar as coisas não é, por si só, criticável. Antes pelo contrário: ajuda-nos a simplificar  a perceção sobre uma realidade tantas vezes composta por complexas engrenagens e dá-nos o estado final da arte.

O problema dos rankings, ou pelo menos de muitos deles, começa precisamente aqui. As tabelas  que ordenam, por exemplo, as escolas nacionais em função dos resultados dos alunos nos  exames nacionais dão-nos apenas a linha de chegada: A escola “a” é melhor do que a escola “b” porque os alunos tiveram médias muito mais elevadas nos exames nacionais. As escolas privadas lideram as tabelas, logo, têm que ser melhores que as públicas. As escolas do Litoral têm, geralmente, melhor resultados, que as do Interior, logo…

A armadilha para a qual todos somos tentados a encaminharmo-nos  é a de nos esquecermos da máquina que, a montante, ajuda a produzir  estes resultados; é minorar e desprezar os pesados fatores exógenos que distorcem qualquer capacidade de lutar de igual para igual. Porque, lamentamos – e quem vive no Interior sabe muito bem disto – , as realidades territoriais são distintas e fortemente condicionadoras. Se o ponto de partida não é o mesmo, por mais esforços que se façam, a linha da meta chegará sempre tarde de mais, porque há pesados grilhões que condicionam a caminhada.

Há muitos anos, fui fazer uma reportagem a uma escola da Pampilhosa da Serra, precisamente no âmbito destes famosos rankings que fizeram o favor de a colocar na cauda da tabela nacional. Não vi lá professores despreocupados e pouco empenhados, não vi lá falta de vontade, não vi más condições de aprendizagem; mas vi um dos concelhos mais isolados do Interior, com um rendimento médio per capita bastante inferior à média nacional, vi um território fragmentado em pequenas aldeias, tantas delas distantes da sede de concelho, de onde alunos saíam cedo e entravam tarde em casa,  vi um território acorrentado pelo despovoamento e fustigado quase constantemente por  incêndios florestais que comprometiam – e comprometem – uma das grandes e únicas riquezas do concelho.

E vi, claro, poucos alunos. Alunos que a escola não escolhia, mas que acolhia e que lhes dava o melhor de si.Isso fazia desta escola uma das piores do país? Não, não fazia, muito pelo contrário.E foi para essa desconstrução da realidade imediata que me desloquei a essa escola, falei com estes professores e alunos. Os rankings das escolas podem ser  enganadores, profundamente enganadores se os tomarmos apenas como um resultado final, onde todos partem em circunstâncias iguais. Não partem e nós sabemos que não partem. As escolas, como partes integrantes de um mosaico territorial profundamente desequilibrado são também o retrato disso. Lamentamos, mas há um mundo lá fora que condiciona a ação de todas as organizações e a mais valia efetiva  destas é o que elas conseguem fazer, apesar de tudo, contra quase tudo. E, sobretudo, se se resignam ou não.