InícioOpiniãoQuando o sol nasce…

Quando o sol nasce…

Nuno Francisco

A recente atualização do preço das portagens em alguns sublanços da Autoestrada da Beira Interior vem novamente lembrar-nos de que quando o sol nasce é para todos. De nascente a poente, esta sensação de justiça de que todos pagam pela mesma medida porque todos  somos utilizadores, contribuintes e cidadãos pertencentes a um país que nos agracia com deveres e direitos iguais é sempre reconfortante na hora de contribuirmos para o bem comum.

Tudo isto é absolutamente pacífico e inatacável. O que já é bastante questionável é quando a igualdade se aplica sobre a desigualdade. E é neste contexto que entra a famosa “discriminação positiva”, ente que se invoca, mas que raramente se vê. Este vulto tantas vezes chamado aos discursos terá a função de – parece-nos – em primeiro, reconhecer que um território está numa posição de absoluta fragilidade em relação à media nacional  e, em segundo, perante tal constatação, a necessidade de aplicar políticas de exceção para que tal possa ser mitigado. Esta misteriosa personagem chamada “discriminação positiva” acompanha-nos, pois, na retórica há tantas décadas que, provavelmente, já pode passar a estatuto de fábula com uma moral que nos escapa em absoluto.

A questão nem é sequer o aumento de cinco cêntimos em cinco sublanços da A23 que, por sinal, são dos que têm maior tráfego. O problema é que estes aumentos recaem sobre um enorme acumular de desigualdades e apenas vêm contribuir para o avolumar das mesmas. Não são os cinco cêntimos, é a ausência de visão. É, novamente, o sinal que é dado; é voltar a insistir que numa das autoestradas mais caras do país que serve uma das regiões mais pobres desse mesmo país, os aumentos são uma realidade quando não deveriam ser, por respeito a essa situação delicada.

Seria apenas um sinal? Seria, mas, por vezes, é o que basta para entendermos que alguém pensou no assunto, que alguém está preocupado. Não são os cinco cêntimos, é a atitude. De resto, nem vale a pena recontar a história desta via, que foi construída para que esta região passasse a contar as viagens em quilómetros e não em horas. Aproximou uma Beira Interior – sem uma rede viária moderna e eficaz – de si própria e do litoral.

Uma autoestrada não fará nenhum milagre por nós, mas cria condições para o desenvolvimento, se tal for devidamente planeado. O problema é que aquilo que tinha sido pensado como uma via gratuita para os utilizadores e construída parcialmente sobre o IP2 passou a ser portajada, estando a suposta alternativa debaixo do asfalto da nova autoestrada. Quando as antigas SCUT foram portajadas, estivessem elas onde estivessem, servissem elas que territórios servissem, atravessassem elas as realidades demográficas e económicas que atravessassem, o sol nasceu mesmo para todas. Só que nos esquecemos que antes disso os dias estiveram muito nublados na Beira Interior.

O sol que tantas vezes nasceu para todos, passou demasiado tempo encoberto pelas nuvens do esquecimento e da lonjura. Mas o céu abriu resplandecente no dia em que foi decidido o fim da gratuitidade das antigas vias sem custo para o utilizador. É verdade: O sol quando nasce é para todos, mas em alguns territórios sempre pairaram demasiadas nuvens no horizonte.