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Provincianismo chique

Já dizia Pessoa que o superior mal português é o provincianismo. E ainda que outros países sofram do mesmo mal, no nosso caso esta é uma maleita que já dura há demasiado tempo. Para não haver dúvidas, há que esclarecer o que se entende por provincianismo. Tipicamente, o provinciano demonstra um excessivo entusiasmo e admiração pelos outros países, por exemplo, pelas suas grandes cidades e monumentos. Além disso, o provinciano alimenta um espanto e exalta o progresso e modernidade atingida pelos outros, menorizando-se ad aeternum. Em boa verdade, o provinciano não consegue olhar com uma ironia pura perante os outros, mas perde-se numa subconsciente inveja.

Sentados numa qualquer esplanada de Lisboa podemos tomar o pulso ao provincianismo. Ele está ali sempre presente, palpitante e exuberante. É habitual ouvirmos, em conversas, a admiração por outras paragens – Paris, Londres e os seus monumentos, muito maiores que os portugueses, é claro. E ao nível do desenvolvimento? A América, o Japão e agora a China, sem contar com a potente Alemanha, tecnologia e ciência é nesses países. – Ora, quem passa demasiado tempo a invejar e contabilizar o que os outros fazem, em lugar de fazer o que devia, está totalmente imerso na peste negra do provincianismo.

A rádio, audível na esplanada, regista as declarações desesperadas de um habitante da Beira. Há queixas de falta de apoio no combate aos incêndios, e do rol de críticas apenas se safam os bombeiros. Logo de seguida sobe o tom da conversa na mesa do lado, onde alguém proclama. – Estes provincianos, do interior profundo, que querem eles? Que o estado gaste os nossos impostos a proteger aquele deserto? Isto não é Espanha ou França, países ricos, estes tipos do interior são mesmo uns provincianos. – Uma risada mordaz contagia todo o grupo.

Eis a prova de que a peste do provincianismo não se resume à província, pois ela habita e ataca o próprio núcleo da capital. Neste caso, como noutros, conhecer a existência da doença é meio caminho para a cura. O provincianismo sobrevive, multiplica-se, e torna-se crónico pela ignorância da sua própria existência, seja ela involuntária ou consciente. Desde as descobertas marítimas de 1500 o país ficou irremediavelmente adiado, é o chamado “problema português” que advém do provincianismo das suas elites, centradas na praça do império.

Felizmente o país mudou, as elites portuguesas já não se limitam aos grupos que olham de soslaio para o estrangeiro, declamam orgulhosamente em francês e inglês, e comentam em tom jocoso a província. Portugal tem hoje elites que, vivendo na província, estão mais preocupadas em construir do que em invejar. A facilidade com que se viaja, e as autoestradas da informação, criaram uma mentalidade global. Essas verdadeiras elites não se deslumbram com o que noutras paragens é feito, pois passam o seu tempo a construir laboriosa e localmente o futuro. As elites que vivem na província correm na sua própria pista, esquecem as outras, e focam-se apenas na meta.

Durante anos lançou-se um anátema contra o regionalismo. Não estamos a falar nas regiões político-administrativas, mas sim no regionalismo enquanto sentimento de pertença e defesa do território que habitamos. Ser regionalista é diferente de ser provinciano, ao contrário do que subliminarmente muitas vezes transpareceu. – Coitados daqueles provincianos regionalistas – dizia-se em surdina. Ser regionalista passava a ser sinónimo de alguém provinciano e atrasado.

Muito pelo contrário, ser regionalista é ser patriota, é acreditar em Portugal, e concentrar-se mais em construir o futuro do que em olhar com cobiça para o alheio. O regionalista valoriza a sua terra, e tem orgulho nos recursos naturais e nos que pelas suas mãos construiu. O regionalista não despreza a sua terra para honrar as outras. E atenda-se a isto, os países mais desenvolvidos do mundo são altamente regionalistas. E quanto aos provincianos? A suprema forma de provincianismo é manter 90 por cento do país em atraso, para que os restantes dez por cento se sintam mais próximos da europa desenvolvida. Não é por se declamar ópera bufa em Lisboa que esta é menos provinciana.