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A pergunta a que ninguém responde

Nuno Francisco

Numa reportagem do jornal Público feita a seguir à tragédia de 15 de outubro, Maria de Lurdes perguntava, talvez à jornalista, talvez ao Estado, talvez a alguma entidade divina ou talvez a si própria: “Depois disto, o que é que nos segura cá?”. Esta questão tem como epicentro a freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela, varrida, como tantas outras no norte e no centro do país, pelas chamas num dia em que os fogos descontrolados reclamaram mais 41 vidas, quatro meses depois de 65 pessoas terem sucumbido ao peso da tragédia em Pedrógão Grande.

A inocente pergunta de Maria de Lurdes por entre as ruínas de uma aldeia parece ter uma resposta óbvia: Nada! Não há nada que a prenda aqui, nem a ela, nem a centenas de outros cidadãos deste Interior que ficaram sem nada, sem réstia de esperança, com a morte a pastorear as ruas e as redondezas, num país onde, há muito, a floresta é sinónimo de perigo, onde as poucas árvores vivas metem medo porque estão verdes e, como tal, em risco de ainda poderem arder. Não, aparentemente não há nada que os prenda aqui porque, mesmo que tenham a tenacidade e a força de voltar a acreditar que podem reconstruir as parcas conquistas de uma vida dura, quando a floresta recomeçar a ganhar vida e dignidade, passará, de novo, a representar perigo iminente, porque pode (vai, se nada for feito!) arder, com o mesmo grau de certeza de a noite se suceder ao dia.

É esta triste e inacreditável amostra de realidade com que tantos agora se confrontam. Por isso, nada como o abrigo da grande muralha de betão das cidades do Litoral onde ainda podem caber os que por aqui resistem e tentam viver e acaba-se, de vez, com os problemas associados a quem ainda insiste em viver para lá de 150 quilómetros bem contadinhos a partir da costa. Aqueles que ainda pedem escolas, segurança, estradas e outros “luxos”.

Aqueles que todos os verões aparecem nos ecrãs em desespero com os incêndios a ameaçarem as vidas e o pouco que amealharam nelas. Será, de resto, um extraordinário exercício académico – e de cidadania – apurar, daqui a exatamente um ano, qual foi o comportamento demográfico destas geografias expostas à destruição do fogo.

O inacreditável, esse, prossegue com o desfile da conversa de rotina, num perpétuo elencar de soluções sobre um urgente (há décadas!) “ordenamento florestal”, uma fundamental “prevenção”, intermediada com “reestruturações”, “demissões”, “investigações” e outras inconsequências tão gastas como o chavão “os fogos combatem-se no inverno”. Tantas palavras, tanta fúria, tanta indignação para tão pouca ação, para tudo continuar na mesma. Ano após ano, década após década. O problema é que isto é resultado de um gigantesco acumular de omissões que se arrastam há tempo demais: êxodo rural, monoculturas intensivas, total incapacidade de gerir o território e diversificar os seus usos, falta de coragem de se iniciar e levar até ao fim planos de longo prazo. É muito mais simples esconder tudo isto atrás de conversa fiada, pedidos de demissão e de reestruturações avulsas. Entretanto, Maria de Lurdes, na sua aldeia semidestruída, fez a pergunta fundamental; aquela a que ninguém consegue – ou quer – responder nos fóruns pejados de banalidades: “Depois disto, o que é que nos segura cá?”