InícioOpiniãoOs novos velhos mendigos da nação

Os novos velhos mendigos da nação

Paulo Duarte

O excelente trabalho de representação gráfica da lista de concelhos e freguesias beneficiários do Programa Nacional para a Coesão Territorial (PNCT) a partir da relação anexa à Portaria n.º 208/2017 de 13 de julho, vem pôr a descoberto uma violenta realidade: não só o Interior é “interior”, mas também o Litoral pode ser interior. Como é possível observar no mapa elaborado pelo expresso e aqui reproduzido, vários concelhos do Litoral Alentejano e até um do Barlavento Algarvio, são considerados na dita Portaria como concelhos elegíveis para integrar o Programa Nacional para a Coesão Territorial, supervisionado pela Unidade de Missão para a Valorização do Interior (UMVI).

Não vou discutir o mérito ou a justificação de alguns dos territórios integrarem a dita listagem por dois motivos: o primeiro é que não é objetivo deste texto e segundo por manifesto desconhecimento factual das particularidades da realidade local de cada um. Ainda assim, parece-me compreensível e incontestável admitir que, apesar da sua maior ou menor “Litoralidade”, alguns sofrem de problemas estruturais idênticos aos dos territórios geograficamente e genuinamente do interior.

O que realmente surpreende e desola é perceber que sensivelmente 80% do território de Portugal apresenta desequilíbrios estruturais que lhe dá o “privilégio” de integrar a lista dos territórios indigentes. É caso para perguntar que andaram os sucessivos responsáveis governativos a fazer durante todos estes anos para deixar o país chegar a um tal patamar de insanidade. Se foi mera insensatez, pura irreflexão, incompetência ou um caso de demência, não sei. O que sim sei é que, para inverter a situação atual e repor algum equilíbrio (o possível, dada a severidade da condição do paciente) é necessário bem mais do que declarações de intenções que têm tanto de românticas como de acéfalas e que, invariavelmente, morrem no papel ou no próximo ato eleitoral.

Curioso é também observar o caso de Viseu, onde apenas 20% das freguesias do concelho (as cinco situadas mais a norte) são abençoadas para integrar a mui desonrosa lista de beneficiárias do PNCT. Ou seja, no mesmo município temos duas realidades bem distintas separadas apenas por alguns quilómetros. Imagino que o autarca e a população de Viseu estejam perplexos com a situação. Eu estou.

É, pois, por demais evidente que a inversão do estado calamitoso a que o país chegou será forçosamente lenta, sendo necessário tomar medidas imediatas, concretas, vigorosas e, sobretudo, corajosas. Mas a culpa, a que morre sempre sozinha, não pode ser imputada exclusivamente à negligência de uma das partes. A nível local, as entidades e representantes individuais das populações são igualmente responsáveis. Veja-se o caso da Universidade da Beira Interior (UBI). Depois do clamor de alerta pronunciado pelo Reitor a quando da cerimónia de tomada de posse, dia 7 de setembro de 2017, relativamente ao subfinanciamento da instituição e à injustiça a que esta tem sido sujeita desde há anos face a outras instituições de ensino superior, poucas foram as vozes locais e nacionais que no momento se ouviram sair em defesa daquela que é seguramente a razão da região não se ter afundado no precipício da ruína que ameaça 80% do território de Portugal. As poucas que, ainda assim, se ergueram para defender a reposição da justiça desde logo trataram de lubrificar bem as palavras para que estas rapidamente escorregassem em direção ao silêncio e ao esquecimento.

A reversão do desleixo a que o Interior foi sentenciado requer o empenho de todos, mas principalmente dos representantes das populações a nível local e nacional. Sendo estes a voz das pessoas que os elegeram não podem ficar calados perante a negligência, o abandono e a injustiça a que grande parte do país, suas instituições e populações, foram condenados com afetuosas promessas ocas e palavras vãs, sob pena destas regiões permanecerem indefinidamente como os indigentes de uma pátria nação moribunda.

pduarte@gmail.com