InícioOpiniãoOlhos verdes…

Olhos verdes…

Maria Antonieta Garcia

Chegam muitos doentes ao consultório médico. Não há cadeiras suficientes. Umas boas almas oferecem o seu lugar, quando a velhice se revela para além das rugas, no passo lento e no encurvar das costas. Às vezes, as pessoas parecem árvores: partem pelo meio. Mas se coxeiam, se trazem o apoio de canadianas, bengalas amigas, e muita palidez… pode ser que a misericórdia se manifeste. Estão mais de 20 arrumados numa sala de espera desconfortável, despida e muito pequena. Encostam-se uns à parede, outros estendem-se pelas escadas a pique… “Viessem mais cedo!” decidem os sentados.

Alguns, quando entram, saúdam: Bom dia! A resposta não é em coro; ainda assim, soa baixinho, uma ou outra saudação.

– “Falta de educação, a de agora!” – Pensa, por certo, o último senhor a entrar. “ A salvação não se nega a ninguém!” – Esta frase ouvira-a em menino. Aprendera-a porque lhe parecia bem.

Na sala, ninguém comunica com ninguém. A maioria, de telemóveis em riste, atenção concentrada em demanda de sabe-se-lá-o-quê inadiável… nem olha. Ora se diverte, a avaliar pelo sorrisinho que os lábios mostram, ora entra em fúria, em mexe-mexe de descontrolo de dedos e de nervos. Só aquele mundo interessa realmente. E jogam, coscuvilham e perdem-se em mares iguaizinhos onde todos navegam. Passam assim o tempo, estes e outros… até porque nunca se sabe quando chega o doutor que vem de Lisboa.

Olha ali, aquele casal! Ambos idosos. Ela de olhitos quase sempre fechados, meio chorosos… Ele com uns olhos enormes, verdes, verdes… Janota, no seu tempo! Aqueles olhos, cheiinhos de luz, não enganam. De vez em quando, ela observa-o… Vê-o de mãos cruzadas. Farto de esperar, claro. O que vale é que a idade trouxe paciência e serenidade q.b. Agora marca o ritmo com o pé. É nervoso, ou anda por ali uma memória de música cuja cadência acompanha?

Espera-se muito em certos consultórios, mesmo se privados. O doutor há de ter apanhado muito trânsito. Atrasou-se mais uma vez. As consultas vão dar para tarde… sabe-se lá quem é o primeiro…

Ela pega na carteira; procura qualquer coisa. Tira um lenço de mãos. Um porta-moedas… Ah! E um rebuçado.

Toca-lhe e diz: – “Toma!”

Ele sorriu. Aceitou. Desembrulhou o miminho e rodou-o na boca, a desfazê-lo devagarinho… Adoçou o tempo, a lembrar a cantiguinha que lhe soava a Paraíso, na voz límpida da amada: Debaixo do alecrim / Pus-me a colher a semente; / Logo que vi os teus olhos / Fiquei presa para sempre.//
Ou aquela outra, meia marota, que ambos cantavam assim: O amor e o respeito / Não fazem boa união: / Quando o amor diz que sim / O respeito diz que não…

E nas danças e nos viras, ou no bailinho mandado, o par fazia figura em trejeitinhos perfeitos. Levezinhos, era prazer caprichado dançarem o corridinho, ao compasso da harmónica…

Olha! Já acabou de rodar o rebuçado, ela olhou, ele ensaiou uma piscadela de olhos que conheciam bem; deu para perceber o obrigado vadio nos sorrisos que trocaram. De que se queixaram? Devem ser os olhos dela que se põem a chorar…

O senhor doutor demora. Virá? É sempre difícil chegar à Beira. Nem que seja do ponto de vista do imaginário. A macrocefalia do país, não é perpétua (era o que faltava!), mas é duradoura. Nem Eça de Queirós avaliou (ou talvez sim!), quão alargado era o prazo de validade para a frase: Portugal é Lisboa, o resto é paisagem.

Criou-se um longe imenso…que nem a arejada, recente, caríssima e bem-parecida “A 23” conseguiu adelgaçar. Linda. De um azul luminoso, clara, solarenga… O problema é que quem vem, não tem tempo para falar, para ver e para ouvir; traz horas contadas, apressado. Garantirá que adora o interior. Que a qualidade de vida aqui é que é… Sim na verdade, no interior ainda temos tempo: aprendemos que o dá Deus de graça e que cada um faz, com ele, o que entende.

Este doutor já chegou. Haja Deus! O senhor de olhos verdes expirou audivelmente. Em pensamento cantou: Pus-me a brincar com o tempo / A ver a graça que tinha: / Encheu-me a cara de rugas / E a cabeça de farinha.

Esta é boa, comentou de si para si. A que horas irei para casa? Melhor é continuar a brincar com o tempo…