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Olhemos para a felicidade

Nuno Francisco

Mais do que sublinhar velhos e gastos preconceitos sobre a quadra que estamos a viver, há, pelo menos, uma virtude que acabará por nos levar a um lugar menos denso na convivência que mantemos com os dias que passam: a presença.  Olhemos para estes dias  povoados de iras, frustrações, invejas, vazios e silêncios avulsos  e tentemos retirar aquilo que é  absolutamente fundamental: a celebração da proximidade de quem ainda nos é querido e especial.

Esta é a derradeira barreira que a saudade não consegue quebrar; aquelas breves horas que se pedem infinitas, que se pede que nunca deixem de abraçar estes dias que se alongam na ingénua sofreguidão de os tornar eternos; de os fazer reparar danos que a longa ausência nos impôs. O Natal que se aproxima é, sobretudo, a partilha na proximidade, o estreitar a distância que nos separou; reconstruir momentos que sabemos, bem lá no fundo, que são irrepetíveis, mas que tentamos sempre desenhar a partir deles uma saudável réplica da efémera, mas intensa, felicidade do reencontro.

É uma fragilidade nossa: gostaríamos que tudo o que nos foi  dado como irrepetível se pudesse replicar eternamente. Sabemos, porém, que a estes reencontros quase sempre se sucederão as partidas, aquela imagem que nos fere de alguém a desvanecer-se no final da rua, dando lugar, novamente, a um vazio que virá, em passada larga, para nos conquistar pela saudade. É inevitável; a saudade é e sempre será a filha predileta da ausência.

Tentemos olhar, agora, para estes momentos que, de uma forma ou de outra, sempre nos tocaram em terras de grandes fluxos migratórios, onde as vagas de silêncio obrigaram tantos a recolher-se por entre os lugares que apenas são notícia quando a tragédia está iminente, quando as chamas galgam os montes para lhes roubar o pouco que conseguiram juntar em vidas de sofrimento e de míngua. Sim, porque o  resto dos dias, é cumprido por entre  ruas que gritam silêncio, por entre vultos que cumprem rigorosamente o seu destino, longe de quem amam, demasiado distantes de uma mão amiga ou de um abraço  reconfortante. Há reencontros que valem por uma vida e só quem os sente é que compreenderá em pleno este Natal que se tenta traduzir em palavras.

Será inevitável olhar, dentro de poucos dias, para as casas iluminadas, para o fumegar  das chaminés por essas aldeias fora, para as palavras cruzadas que atravessam os frios silêncios das casas que o resto do ano permanecem apenas como testemunhas de dias que se vão subtraindo no desejo do reencontro. Será, igualmente, inevitável olhar para os rostos, e não apenas para os mais familiares. Olhem, por essas terras esquecidas  desta Beira, para os rostos que vivem na expectativa do reencontro; olhem para o brilho que os inunda e que ilumina aqueles nobres gestos que década após  década solidificaram a nossa identidade. Olhem para a sóbria alegria com que se lida com o quotidiano, na preparação dos lares, nas escolhas das prendas; olhemos para a alegria que se transporta nas ruas. Este universo de afetos vive-se em cada rua de cada aldeia. Olhemos para estas terras varridas pela saudade e  descubramos uma das mais extraordinárias  formas de felicidade. E é tão simples: O reencontro lido numa lágrima, num abraço, num olhar…