O voto

Nuno Francisco

A plena cidadania está, evidentemente, longe de se esgotar no mero ato de votar. O voto é uma consequência de um processo de liberdades e garantias que uma sociedade soube erguer e que resulta no processo de escolha dos seus representantes políticos que têm como função primeira representar os seus concidadãos na gestão da coisa pública. Este processo é um dos alicerces fundamentais para a construção e sustentação de um espaço que seja verdadeiramente comum, que dependerá sempre do grau de liberdade que usufruímos; liberdade essa que nos predispõe para a partilha de ideias, para a franca convivialidade, para a qualidade do debate e das relações interpessoais, para a confrontação de rumos e para uma sã e honesta troca de ideias.

Sabemos que construir um espaço público com esta vitalidade não é, de todo, uma utopia, mas será sempre o resultado de uma longa caminhada e de um árduo trabalho de uma comunidade. Mas também sabemos que foi da liberdade feita livre questionamento e genuína partilha que nasceram consensos que se traduziram em inquestionáveis avanços civilizacionais.

Votar não é, pois, apenas escolher formalmente, de quatro em quatro anos ou de cinco em cinco anos, um candidato, um movimento ou um partido; votar é também a tradução da responsabilidade que cada um de nós tem na salvaguarda da qualidade deste espaço de vivência comum, que é a democracia. Houve, neste país, muitos homens e mulheres que pagaram caro a ousadia de pensar a liberdade; demasiados homens e mulheres que pela liberdade cívica sonhada foram remetidos, anos a fio, para o pesadelo bem real dos calabouços do Estado Novo.

A Liberdade (assim mesmo, com letra maiúscula) e o direito de optar livremente pelos nossos representantes em democracia não é, como não foi, um direito inalienável e perene. Tudo isto foi o resultado de uma longa conquista que emergiu das ruas na madrugada do dia 25 de abril de 1974.

Haverá muitas razões para justificar o generalizado aumento das taxas de abstenção nas eleições. Uma dessas razões será apenas “técnica”, com cadernos eleitorais desfasados da demografia eleitoral que realmente pode exercer o direito de voto numa determinada geografia. Outras são bem mais profundas e relevantes e têm diretamente a ver com o consciente ato de não votar. São essas razões que merecem de todos – cidadãos e seus representantes – uma longa pausa para pensar… e reagir.

A descrença e o desapontamento do eleitorado é sempre uma das primeiras justificações que se atravessam quando este assunto vem para o centro da discussão, onde não há inocentes. A responsabilidade cabe a cada um de nós, no envolvimento que queremos ter na efetiva melhoria social da geografia que habitamos, participando, empenhando-nos nos fóruns locais, fomentando e alimentando o debate, a partilha e a exigência. E também dos eleitos pelo exemplo que têm que dar (e que nem sempre dão) como fiéis depositários da confiança da comunidade para gerirem a coisa pública, financiada com os nossos impostos. Domingo há eleições para as autarquias locais e o voto será – terá de ser! – antes de tudo, o reafirmar do nosso compromisso com a liberdade.