O futuro

Nuno Francisco

Olhando para o que ficou para trás, alterar algo nesta linha de continuidade que se estende perante nós – e que, naturalmente, não se quebrou com as 12  badaladas que assinalaram a mudança de ano – requer bem mais do que os habituais desejos de ano novo. Como vimos em 2017, as realidades que assombram a nossa condição não se diluem nem com desejos,  nem com palavras.

Da tragédia dos incêndios florestais, que deixou a nu todas as fragilidades de um país na administração do território e na salvaguarda de vidas e bens, à ainda latente incapacidade de se começar efetivamente a reverter o processo de esvaziamento dos territórios do Interior, o caminho que se fez tende a prolongar-se candidamente em 2018, se não formos além dos desejos e das boas vontades que expressámos nos primeiros minutos do ano que agora começou.

De resto, aproveitemos a aurora deste novo ano para alimentar esta renovada esperança que acompanha sempre a viragem dos anos e comecemos a trilhar novos caminhos de proximidade. A de uma proximidade efetiva entre o sentido de premência e o estreitar da cooperação em função de um objetivo, que é o mais nobre que temos enquanto comunidade: garantir o futuro do território. É esse futuro que inevitavelmente virá após cada fogo-de-artifício que assinala entrada de um novo ano; é esse amanhã que se sucederá sempre após cada desejo que lançamos.

Mas esse é também  o futuro que se desenhará, fundamentalmente em função das ações que hoje faremos. Não é pedir demais que as poucas forças que ainda movem este território encontrem neste tão evidente desígnio comum, a necessária força motriz para assumir uma posição de cooperação. Gerir este capital de esperança que o novo ano nos traz também nos obriga a olhar para os anos que se fecharam atrás de nós e fazermos o devido exame de consciência à nossa cultura comum de cooperação.

A evidência que sobressai é que se esteve sempre longe demais de criarmos algo que seja realmente comum e transversal à Beira Interior. E aqui, a questão nem sequer é a de uma imposição ou opção administrativa, como a regionalização. Do que se trata é tão-só olhar em volta e apercebermo-nos de que sozinhos não vamos lá. A simplicidade do que se pede é sentarmo-nos a uma mesa suficientemente ampla que extravase os limites dos concelhos ou das artificiais comunidades intermunicipais e olhar para esta Beira que tem a mesma urgência comum e que precisa de respostas já. Sem formalismos, sem outra necessidade ou exigência do que uma franca troca de ideias. É assim tão difícil?

A sucessão de “anos novos” faz de nós apenas uma coisa: pessoas mais velhas. Com esse acrescentar de idade, torna-se mais evidente, até pelo acumular de memórias  e experiências, que muito do que hoje desfila perante o nosso olhar é, também, responsabilidade nossa. E a maior parte das vezes nem sequer podemos atribuir a isso uma qualquer má-fé ou intencionalidade, mas, antes, à omissão. Há algo que devemos ao presente e, sobretudo, ao futuro, aos dias que legaremos a alguém: conhecendo todos os diagnósticos da situação, é impossível não agirmos. E será cada vez mais difícil suportar essa omissão. Por mais desejos de bom ano novo que se façam.