InícioOpiniãoEste nosso notável Natal pagão

Este nosso notável Natal pagão

Paulo Duarte

O Natal é deveras surpreendente, não só pela sua história, mas também pelas rotinas que lhe estão associadas. Se dúvida houver quanto à sua natureza mágica basta comprovar como quase tudo nele é pura fantasia, a começar, desde logo, pela data de celebração. Sendo uma festa para comemorar o Nascimento de Jesus Cristo, a verdade é que a data real é desconhecida, pelo que a atual data de celebração a 25 de dezembro é uma convenção estabelecida algures pelo século IV, em parte por associação à celebração do solístico de inverno (Saturnalia).

Mas, se há factos associados ao Nascimento de Jesus que ainda hoje suscitam teses sobre a sua precisão factual, sobre outros não restam dúvidas sobre a sua origem ficcional. É o caso da árvore de Natal. Sugere-se que terão sido os alemães os primeiros a levar para casa uma árvore e a decora-la algures por 1500, contudo a sua massificação viria apenas muito mais tarde, a partir de 1841, quando o príncipe Albert (marido alemão da rainha Victoria) mandou montar uma árvore de Natal no castelo de Windsor. Hoje, são vendidas anualmente mais de 60 milhões de árvores de Natal naturais, a que há que somar as artificiais. Um negócio estimado nuns 2 biliões de euros.

A vertente comercial do Natal teve origem em 1820 quando as lojas nos Estados Unidos começaram a publicitar e a promover as vendas na época de Natal e em 1840 os jornais dispunham já de secções dedicadas exclusivamente a anúncios de Natal. Associada a esta nova faceta nascem costumes como o dos postais de Natal (hoje em claro declínio) que foram um sucesso durante décadas, tudo graças à imaginação de um britânico em 1843. Já a tradição das prendas é associada à Holanda, de onde provém igualmente a moda de pendurar meias na chaminé. Já o icónico Pai Natal e a sua rena Rodolfo são criações mais recentes. O Pai Natal, na sua versão moderna, começou a ser popularizado em 1809.

Todavia, a transformação mágica da sua imagem para a versão atual dá-se em 1931 pela mão de um diretor criativo da Coca-Cola. Até o Rodolfo (que por pouco não foi batizado Reginaldo), a mais brilhante rena do Pai Natal, foi também inventada por um publicitário em 1939 para promover e atrair crianças a uma loja, através da oferta de livros para colorir. Inclusive a prática da caridade e a boa vontade, tão típicas da época, são uma criação, presumivelmente com raízes no clássico conto de Natal de Charles Dickens, “A Chritmas Carol”, publicado a 19 de dezembro 1843.

Podíamos continuar, mas creio que já perceberam. O Natal, vulgarizado e transversal a povos e culturas, é na prática quase todo ele uma invenção, uma notável e admirável fantasia que encontrou terreno fértil na necessidade do ser humano espiar culpas e manter acesa a esperança num mundo melhor, mais justo e afetuoso. Atualmente, o Natal é um momento sagrado e um fenómeno cultural e comercial, o que não deixa de ser contraditório. Um prodígio do marketing, dirão alguns. A realidade é que em muitos sectores as vendas de Natal são essenciais, chegando a representar quase 30% das vendas anuais das empresas. Algumas pessoas quase enlouquecem no frenesim das compras e na preparação da festa ignorando desavergonhadamente o espírito e a razão de ser da celebração.

Aqui, por estas terras devolutas do interior, fomos igualmente vergando à força deste cintilante Natal artificial, mas ainda assim vamos conseguindo, a custo, manter alguns dos nossos costumes e tradições. As religiosas, onde se destacam a elaboração do presépio e a presença na missa do galo, passando pela gastronomia, onde marcam presença o bacalhau, as couves, as filhós e rabanadas e o bolo rei; terminando nas sociais com o convívio em volta do madeiro e as janeiras. Estas são invenções reais porque são nossas, testemunhos vivos da identidade de um povo e de uma região. Costumes e tradições pelas quais é essencial lutar para manter, mas sobretudo repassar às gerações futuras.

Pessoalmente, nunca esquecerei o sabor das filhós doces da minha mãe. São estas memórias que fazem do Natal notável, seja ela qual for a sua origem ou natureza. Bom Natal!

pduarte@gmail.com