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Nós, o tempo e o silêncio

Nuno Francisco
É comum nesta altura do ano preencherem-se páginas de jornais com balanços sobre o ano que passou e perspetivar o que os próximos 12 meses nos reservarão. Com 2017 prestes a fechar definitivamente a porta, não assume particular relevância, nesta coluna, fazer um mero histórico sobre os dias que preencheram o quotidiano, mas procurar o significado do que se passou e que nos molda enquanto comunidade. E neste aspeto, será relevante pensarmos em algo tão abstrato quão presente: o tempo e o uso que dele fazemos.
O que 2017 nos  demonstrou, mais uma vez, foi precisamente que nos demos a  um luxo ao qual não nos podemos entregar: o contínuo desperdício de tempo. Esse mesmo tempo que se vai esgotando e no qual vamos registando o que fazemos e não apenas o que fazemos por nós, mas também pelos outros.
É nesse tempo que nos atravessa que se continuam a gravar  quezílias de lana caprina, hesitações que prolongam o atual status quo da inércia,  pequenas e grandes invejas que enviesam parcerias. A sensação que vinga ao fim destes meses é que voltaram a existir demasiadas palavras que não encontraram a devida correspondência em atos. E o tempo, entretanto, varre-nos implacavelmente o quotidiano nesta falsa segurança de se viver um dia de cada vez, à espera que algo exterior  faça o nosso trabalho e que cumpra aquilo que nos cabe cumprir.
Esses são os dias que passam sem registos notórios. E olhando em redor, a perceção de tal é muito vincada.  Foi este deixar andar que nos trouxe até aqui. Foi com essa perceção do viver o dia a dia, não chateando, não importunando, não questionando, não sonhando, foi nesta resignação de que pouco ou nada há a fazer, que deixámos  que os dias varressem estas paisagens de gentes e de esperança.  E o tempo trouxe-nos o silêncio;  as ruas de ninguém, as casas vazias dos ausentes; as memórias que florescem onde ninguém ficou para contar a história.
A perspetiva para 2018 não pode ser outra senão a de, enquanto comunidade que reside nesta região, tentar gravar no tempo novos estímulos que nos permitam adquirir  esse grau de ousadia;  essa suprema conquista que é a aproximação por um bem maior, a de uma efetiva solidariedade que nos permita fazer de causas dispersas uma causa comum pelo futuro da região. E a partir daí começar a alterar o atual estado das coisas; numa voz  em uníssono que consiga romper todos os silêncios que se instalaram também nas nossas consciências.
O primeiro passo para tal será sempre o de restituir o necessário capital de esperança a tantas geografias desta Beira,  que ano após ano foram sendo esvaziadas pela total incapacidade de conseguirmos algo tão simples como não apresentarmos quase sempre a porta de saída como única  opção viável para o futuro.
É preciso começar a cultivar, já, a esperança que não nos leve sempre ao mesmo encolher de ombros quando se deixa outra casa entregue à ausência. E o silêncio que nos ronda não é apenas o da ausência de palavras. O silêncio que vagueia por aí também é conformismo e desistência. Não se trata de votos para 2018, mas  sim o sublinhar de uma premente necessidade. Para que estas formas de silêncio não nos conquistem irremediavelmente. Essa seria a nossa maior derrota. E, provavelmente, a definitiva.