InícioOpiniãoQuando nós não falamos, o infortúnio fala por nós

Quando nós não falamos, o infortúnio fala por nós

Nuno Francisco

O Interior ganhou – à custa de muito sofrimento –  espaço mediático. Agora, enche verbos, alimenta substantivos, inflama discursos e arrasta mares de preocupações. Nenhuma destas constatações se aproxima a uma qualquer ironia.  O “Interior” está mesmo na agenda mediática e no pensamento  de muitos que acordaram agora para uma realidade que sempre esteve a uma curtíssima distância de um olhar realmente interessado.

Este violento acordar tem –  é óbvio –  duas causas fundamentais: os dramáticos incêndios e a seca. A primeira foi demasiado grave e traumatizante para se poder varrer imediatamente da memória tal como se fez com tantos outros verões pintados a cor de fogo e de lágrimas. A segunda, é “apenas” a pior seca dos últimos 87 anos, que  compromete o abastecimento de água às populações e  ameaça as produções agrícolas.

Correm, agora, pelas colunas dos jornais e pelos múltiplos ecrãs os devidos lamentos e os repetidos desejos de que é preciso fazer tudo o que não foi feito até agora. Ora, o “tudo”, para além de ser demasiado ambicioso,  é uma impossibilidade. Aliás, neste ponto, qualquer ação minimamente substancial será uma celebrada vitória  neste  enfraquecido território amplamente saturado de boas intenções que se diluíram no vento.

O que tiver que ser feito, por pouco que seja, que seja feito agora, porque neste Interior que ganha protagonismo pelo infortúnio, o silêncio voltará a instalar-se. Não aquele silêncio que estamos habituados a reconhecer como senhor das ruas, mas o silêncio que pousará sobre todo este território que colocou o país em sobressalto pela indescritível tragédia que o assolou. E se, porventura, o único grito verdadeiramente audível que podemos dar só pode ser  dado pela voz da tragédia, então é mesmo preferível o reino do silêncio.

Ora, é precisamente o acumular de omissões, erros e desinteresses que nos trouxe até aqui, a este preciso ponto em que é preciso fazer tudo. Talvez não se compreenda o fundamental:Isto é o resultado de um longo processo onde todos têm o seu quinhão de responsabilidades. Todos! A começar por esta região onde os patamares mínimos de entendimento estão longe de ser capazes de produzir uma voz audível.

Este é um problema de base que deveríamos começar por resolver, antes de sequer se pensar em começar a resolver “tudo”, verificando no fim que, mais uma vez, acabamos por não resolver nada. Porque se não existir uma voz que fale por nós, será pela voz do infortúnio e das lágrimas  que nos faremos visíveis e audíveis. Olhando em volta, este seria o tempo ideal para se juntarem as vontades e fazer-se desta Beira Interior um interlocutor interventivo. Mas os fragmentados interesses políticos e administrativos continuam a fazer o seu caminho, com os resultados que todos conhecemos. E os exemplos são muitos.

Fica apenas o mais recente: O caso do crónico subfinanciamento da Universidade da Beira Interior, uma das mais importantes – e  escassas –  âncoras de desenvolvimento da região. Para além da UBI, quem levantou a voz na defesa da correção desta injustiça? Poderemos, com boa vontade, contar alguns nomes. Mas alguém deu conta de uma firme posição regional? Pois… Os outros que falem por nós.