InícioOpiniãoNão são pessoas, estúpido! São eleitores

Não são pessoas, estúpido! São eleitores

Paulo Duarte

Repesco a frase que dá título a este texto de uma conversa fictícia entre “camaradas” de uma qualquer candidatura política, partidária ou independente, pois na prática é indiferente.

Um título que resulta da perplexidade face ao que ouvi nos debates promovidos por uma rádio local e que fiz o esforço de escutar. Do que ouvi é notório o fraco nível de preparação, a falta de consciência cívica e até de educação, bem como a manifesta tendência para a megalomania e para a fabulação de alguns intervenientes. Sobressai ainda a longa e aparentemente proveitosa carreira ao serviço da “causa pública” de alguns candidatos com muitas contas político-partidárias por acertar. Contendas que insistem em transportar para a discussão como se para os cidadãos as suas quezílias pessoais e o desejo de desonrar os adversários fossem relevantes.

Algo evidente na obsessão com o passado, o seu e o dos outros candidatos, relegando para segundo plano as propostas para o futuro. A isto há a somar o levantamento de suspeições diretas e veladas, acusações de má gestão, favorecimento, apropriação em benefício próprio de bens públicos, ilegalidades e irregularidades administrativas, prepotência, considerações sobre opções pessoais, civis e religiosas e, claro, a desvalorização do trabalho realizado pelos executivos cessantes, o qual é obviamente sobrevalorizado pelos candidatos da continuidade. Num labirinto repleto de galardões para classificar a atuação de uns e outros fica o ouvinte completamente deprimido e confuso sobre o papel e o real valor do poder autárquico local. Uma vergonha!

Salvo raras exceções, em que foram apresentadas propostas concretas, na maioria são enunciadas apenas promessas genéricas, glamorosamente engalanadas com chavões apinhados de boas e sedutoras intenções, mas ocas de conteúdo: “promover o desenvolvimento económico”, “inverter o ciclo de empobrecimento” “dinamizar os vários setores económicos”, “promover de políticas sociais de inclusão” ou “criar empregos para todos”, mas sem nada concretizar acerca da operacionalização. Mais curioso é ouvir candidatos dizer que vão agora fazer aquilo que prometeram, mas não fizeram nos mandatos anteriores.

Contudo, o que mais choca o cidadão atento é que muitos candidatos olham as populações não como pessoas, mas como meros eleitores e, em alguns casos, como tolos, pois só isso explica as persistentes acusações, negações, incoerências e contradições, bem como a azafama de obras e inaugurações na reta final do período pré-eleitoral. A dura realidade é que todo o eleitor é cidadão, mas nem todo o cidadão é eleitor e que apenas este último tem valor na contenda eleitoral. Recordo um debate em que um dos candidatos questionou diretamente o adversário sobre o número de eleitores da freguesia. Não perguntou pelas pessoas da freguesia, mas apenas e só o número de eleitores, pois na prática apenas esses contam. Noutro debate um interveniente foi claro relativamente à hierarquia de valor dos cidadãos: “Coloquemo-nos perante os eleitores e os cidadãos eleitores com humildade… e no dia 1 de outubro os eleitores decidirão”.

No meio de tanta perversão, um candidato, com sinceridade, foi perentório sobre a hipocrisia que reina no seio da política: “… falou nas práticas e valores na distinção entre candidatos, mas para mim é também o carácter. O carácter, a forma como fazemos as coisas. A forma como estamos na política, a forma como nós chegamos às pessoas. O bajulamento, a graxa, a…, a…. Não! Tem de ser dito! Nesta altura das eleições, toda a gente bate nas costinhas, mas depois abandonam-se as pessoas. As pessoas disseram isto, estão a dizer isto. Porquê? Porque não acreditam nos partidos…”.

É, pois, urgente uma participação cívica eleitoral distinta, coerente, com ética, humildade e responsabilidade. É premente que se tome consciência de que quando a política perde a visão humanista da sociedade e passa a ver as pessoas como ferramentas perde toda a razão de ser. Cada cidadão é uma pessoa, independentemente da sua condição ou não de eleitor e ninguém quer ser tratado como idiota. Haja vergonha e respeitem-se as pessoas.

pduarte@gmail.com