InícioOpiniãoÀ morte ninguém escapa…

À morte ninguém escapa…

Maria Antonieta Garcia

DIZ a lengalenga a querer enganar a morte: “À morte ninguém escapa / Nem o rei, nem o papa. / Mas escapo eu. / Compro uma panela, / Custa-me um vintém. / Meto-me dentro dela / E tapo-me muito bem, / Então a morte passa e diz: / – Truz, truz! Quem está aí? / – Aqui não está ninguém!

Na infância, sossegava esta forma de ludibriar aquela má vizinha, de foice em punho, perversa. Depressa aprendíamos, porém, que àquela mulher feia, quando lhe crescia a cobiça, ceifava democraticamente novos e velhos, bons e maus, sem que ninguém desvendasse os critérios que presidiam à seleção. Como exorcizá-la?

Pois é. A morte sitia a vida, é uma realidade inevitável. Rodeia-se de palavras de sofrimento, de dor. O desejo da imortalidade existe, e a recusa da morte como aniquilação absoluta é transversal a todas as culturas.

A arquitetura, a estatuária tumular, os ritos mortuários tendem a esconjurar a morte como um fim. O repouso é a imagem mais antiga do Além, as estátuas jacentes da arte funerária representam a morte como um longo sono. As orações falam em: “Descanse em paz”.

Ensina Philippe Ariés que: “…inicialmente enterrou-se longe das habitações, em espaço descoberto (…) e no século VII, no máximo, enterrou-se dentro da Igreja e em seu redor”. (O homem perante a morte).
Os lajedos de templos beirões, os seus adros documentam esta prática. Bispos, padres, monges e laicos privilegiados honravam-se com o enterro no interior da igreja /capela. Nos adros, inumavam-se outros.
A hierarquia social continuou a respeitar-se, quando, por obrigação legal, os enterramentos passaram a ter lugar fora destes lugares sagrados. A edificação de jazigos e/ou sarcófagos na álea central de qualquer cemitério revela que o prestígio social é transferido para a última morada.

Nos livros de Assentos de Óbitos, um texto longo significa que a pessoa referida pertence a gente “importante”. Constam o nome, a filiação, a idade, data do falecimento, lugar onde foi inumado, a causa da morte, ter recebido os Sacramentos, a existência de testamento… Mas qualquer meia dúzia de linhas era suficiente para registar um exposto, um “anjinho”… Esta é a regra. O registo que transcrevemos é uma exceção. Refere-se a uma criada de servir e alarga-se em detalhes que provocam pasmo pelo insólito. Lê-se que Ana Fatela, natural do Fundão, filha de Joaquim Fatela e de Antónia Santarém: “…faleceu a 17 de janeiro de 1856, tendo recebido todos os Sacramentos. A hora da morte foi pela 1 hora da manhã e, seriam cinco horas da tarde, fez-se-lhe o enterro da Santa Casa da Misericórdia para o cemitério de São Francisco, e notei, quando se lhe diziam as últimas preces, que o rosto apresentava uma linda cor de vida, com um olho aberto sem que estivesse búzio; suspendi o enterro, mandei chamar um Facultativo – Lourenço Simões de Brito – que encontrou sinais de vida. À vista disto, tornei a conduzir o corpo, neste estado, para a Casa do Despacho da Santa Casa da Misericórdia onde esteve (…) no mesmo estado de rosto aceso, sem mostras algumas de morta, à exceção da falta de movimento e isto com grande admiração de toda a gente que a observava. Assim esteve dias e só então deu sinais de corrupção e foi sepultada à entrada do cemitério de São Francisco, ficando a sepultura arrumada às escadas que dão entrada no cemitério”. Identifica mais: “Era criada de servir do Doutor Juiz de Almeida Saraiva, da Covilhã, que estava aqui, nesta vila, Delegado do Procurador Régio (…) ”.

Acrescenta o sacerdote que Ana Fatela “sempre foi doente com uma cor sempre de defunta e só tomou cor depois de morta, como acabo de expor. Teria de idade 25 anos, e a causa da sua morte foi de apoplexia, de que para constar, mandei lavrar este termo que assino. Fundão, 23 de janeiro de 1856. Padre António Joaquim de Castro.”

Este é um Assento mais que perfeito para causar calafrios a quem lê. Ana Fatela vivia ainda? Estava em coma? Olhos bons eram, felizmente, os do sacerdote que viu uma “ linda cor de vida”. E o médico ter detetado “sinais de vida”. Um velório que duraria 16 horas – entre a 1 da manhã e as 5 horas da tarde -, prolongou-se por seis dias. O que foi feito entretanto? Quem não temia ser enterrado vivo, in illo tempore?