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Maria Mendes…

Maria Antonieta Garcia

Porte senhorial, magra, alta, olhos escuros, suavemente sedutores, boca bem-feita, a Maria Mendes era a mais graciosa das irmãs. Num tempo que defendia que gordura era formosura, ninguém cobiçava a magreza. Hoje, não. Certo é que a anorexia não entrara no vocabulário comum e o emagrecimento traduzia fome de fartura…

Maria, enquanto nova, pertenceu ao número de raparigas que ou servia senhoras, ou trabalhava a terra de sol a sol. Tratava por tu os obstáculos que se levantavam a quem era pobre. Desejada por vários cachopos da aldeia, não hesitou quando o Zé E. a encantou. Ninguém entendeu:

– Ganhe ele pão, tenha focinho de cão! – Argumentava Maria.

Exagero? Claro que sim. Mas o bonito não era tudo. Ter o pão de cada dia vaticinava o bom viver.
A cantiga lembrava perentória: “Casei-me com meu amor, / Não me lembrei da fazenda / Agora que estou casada / O bonito não me alembra //”.

Felicidade? E o que era isso? O Ti’ Zé até nem era feio. Porém, ficava sem graça nenhuma, com a falta de arte do barbeiro da aldeia. Ali o cabelo era atacado numa guerra sem quartel. Mais, ou menos curto, isso dependia da disposição do fígaro… Primava pela antipatia e desgraçava a aparência às criaturas, em três tempos. Aos ganapos era pior. “Malga” em cima da cabeça, a tesoura à roda respeitando a formatura do recipiente e o desaire cumpria-se.

A solução? Rapar à máquina zero, ou entrar na barbearia nos reduzidos dias de inspiração do baeta aldeão. Ao Ti’ Zé, os remoinhos despenteavam-no muito. Já o bigode era um senhor bigode: sabia traçá-lo de um jeito que lhe acentuava o sorriso. Ou parecia… Lá se entenderam a Maria e o Zé… até que Deus quis. Nasceu-lhes um Zé, rapaz apessoado dado a paixões impossíveis. Filho único, uma raridade na época, não o largavam amores muito passageiros e variados. Quem ele queria, não o queria…

A mãe tecia o destino de mulher: era analfabeta, dava uma mão no que aparecia; o pai, cantoneiro, com farda janota, tinha uma memória de truz e era contador inveterado de muitas histórias. Feitiço maior do Ti’ Zé? Sem dúvida!

– Tens medo de cães?
– Tenho! Ladram e mordem…

– Pois é! Mas o que tu não sabes é que eles têm muito medo de ti…

Um olhar incrédulo acompanhado de um encolher de ombros traduziram a dúvida, a descrença…

– Têm, têm… Sabes o que hás de fazer?

Um dia vi um cão grande, enorme… Dentes de fora a rosnar, a correr feito doido… a soprar, a arfar… a aproximar-se. Eu quietinho! Deixa-o vir! A boca toda aberta, a rosnar, a roncar, a latir… Furioso mostrava os dentes e muita raiva. Muita raiva…

– Que medo!
– Qual medo?! Ele chegou. Pertinho. Boca escancarada! Arremeteu contra mim… gritei-lhe, arregacei as mangas… meti-lhe o braço pelas goelas dentro, cheguei ao fundo, agarrei na cauda… Virei-o do avesso!

O Ti’ Zé era capaz de dar a volta a qualquer texto. Mantinha-nos agarrados, segurava a narrativa na crista da onda… Era perito nos desenlaces. Ora irritavam, ora aliviavam, ora riamos até às lágrimas…
Um dia, cansou-se. Partiu. Morreu de quê o Ti’ Zé? A Tia Maria, ainda nova, vestiu-se de preto. Era para sempre!

Rondavam-lhe a porta. Mulher de encanto, trabalhadora, olhos escuros a prometer muita luz… Paixão, aos 60? Quem sabe?

O filho casara. Ela estava só, com a mãe entrevada numa cama: Ajudavam as irmãs. Mas era ela que, no Alcaide, a tratava diariamente.

Tinha bom feitio. A sua casa, pobre e pequena, sempre serviu de lar para todos. A Tia Maria obrava o milagre da multiplicação do espaço.

Casou de novo. A reforma do homem era boa-com-muitas-aspas, mas para quem precisava, significava uma riqueza!

Durou pouco, o matrimónio. A Tia Maria viúva de novo… Um dia, fui vê-la; estava hospitalizada. Envelheceu tanto! Ouço-a cantar! Não me vê, não vê ninguém! Continua só. E canta! Espanta que males? Saúdam-na. E cantarola. Não está bem! Palavras? Só as que deambulam pelos cânticos mascaradas de estranheza…

Em novembro, lembrei-a… Havia de gostar tanto da Festa dos míscaros!