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Lugares conjugados no passado

Nuno Francisco

Conte-se um a um os dias que se esvaem por entre nós, pejados de memórias distantes, de aldeias e lugares que agora se remetem ao silêncio, conquistados pelo mato que reclama o espaço por entre o abandono. Todos temos horror ao vazio; ao vazio de genuínas amizades, ao vazio das memórias, ao vazio de não viver com relativa alegria. A natureza também sofre dessa condição de aversão ao vazio, levando até onde é possível o seu domínio, até onde não encontre a oposição de mãos que a tratam, que a trabalham, que lhe extraiam outras riquezas e aproveitem outros potenciais que não a sobre-exploração intensiva, desordenada e irresponsável de uma floresta por onde o fogo pasta até querer.

O que arde criminosamente é sobretudo isto: memórias erguidas sobre o abandono. O que alimenta estes fogos de violência extrema é o vazio de gentes e de ocupações mais racionais para o território que temos disponível. Uns chamam-lhe “falta de ordenamento”. Será. Mas a melhor expressão será , provavelmente “falta de humanização”. Terras a perder de vista sem que ninguém as guarde, as cuide, lhes lance a mão, as habite, as faça suas e as tome a seu cuidado. Os fogos passeiam como querem por entre memórias de lugares que já tiveram pulsação, nervo e vida, mas que agora só existem como nome impresso num mapa. São lugares de embarque sem rio ou mar ao pé, conjugados num passado onde alguém já viveu, onde alguém já trabalhou, onde alguém já amargurou e onde alguém, ocasionalmente, já foi feliz antes que a premente necessidade de sobrevivência os lançasse para outros rumos.

Os fogos punem um território sem culpa formada, arrancando pela raiz a pouca esperança dos poucos que ainda olham para esta terra como sendo a sua. Olhe-se para estes lugares, tantos lugares que se encaminham para o destino final de serem tragados para sempre pelo espetro da ausência ou para se tornarem resorts de férias e de fins de semana, para quem quer dar uma breve trégua à agitação dos dias.

O Instituto Nacional de Estatística lançou, na segunda-feira, mais um retrato territorial de Portugal. No documento constata-se que entre 2011 e 2016 houve “um agravamento do índice de envelhecimento em 293 dos 308 municípios portugueses e, sobretudo, em municípios das sub-regiões do Interior Norte e Centro (Beiras e Serra da Estrela,Beira Baixa e MédioTejo). Ou seja, as comunidades intermunicipais que englobam a quase totalidade dos municípios da Beira Interior. Mais: olhando para os casos mais preocupantes a nível nacional os municípios destacados são “Almeida,Vila de Rei, Oleiros, Penamacor e Castanheira de Pera que registaram um aumento em mais de 100 idosos por 100 jovens”.

Ou seja, à exceção do último, todos os municípios onde em apenas cinco anos mais cresceu o número de pessoas com 65 e mais anos por cada 100 pessoas menores de 15 anos estão localizados na Beira Interior. Não deixa de ser admirável a calma olímpica com que se olha para os graves sinais que nos são dados ano após ano e que vão sempre num dramático sentido. Só assim se justifica que se continue a gerir o território e as expectativas só até ao horizonte da freguesia e do concelho. Mas alguém, num dia não muito distante, nos pedirá contas por tudo isto.