InícioOpiniãoO longo caminho do Interior

O longo caminho do Interior

Miguel Nascimento

Lembro-me da construção da auto-estrada do interior como uma prioridade de todos os políticos. Mas, apesar de ser uma prioridade avançava, como tudo o que diz respeito ao Interior (com excepção para os cortes e encerramentos) de uma forma muito lenta. Lançava-se concurso para a construção de alguns quilómetros, depois tudo avançava ao ritmo de sempre e junto a uma campanha eleitoral para eleições legislativas lá se inaugurava com a promessa da construção de mais um troço.

Este foi, durante décadas, o longo caminho da construção da auto-estrada da Beira Interior. Foi pela mão de António Guterres e do seu ministro do Equipamento Social, João Cravinho, que pudemos contar, finalmente, com a acessibilidade que reclamámos desde sempre, através de um modelo de financiamento sem custos para o utilizador – SCUT. Este conceito, inspirado no modelo britânico shadow toll, conseguiu resolver a questão da A23, construindo as ligações em falta entre Torres Novas e a Guarda, e com isso, abriu novos horizontes para o desenvolvimento do Interior.

No fundo, com este modelo, o Estado ganhou tempo para o Interior, conferiu-lhe justiça e promoveu a coesão social. Apesar de tudo a auto-estrada chegou com décadas de atraso. Mas, como sempre, olhámos para o “copo meio cheio” e depositamos esperança nesta auto-estrada para nos ligarmos ao futuro e recuperarmos de décadas de atraso e de dificuldades estruturais na nossa economia em função das fracas acessibilidades que nos serviam até então. Há ainda muito por resolver neste domínio.

Mas, a A23 representou um sinal de mudança e uma acção efectiva e eficaz em prol do desenvolvimento do território Interior de Portugal. Com este modelo o Estado foi justo e solidário com o Interior, substituindo-se a todos os utilizadores desta via no pagamento de portagens à empresa concessionária. Com a aposta neste modelo o Estado deu um sinal muito claro de querer apostar verdadeiramente na coesão e desenvolvimento do Interior, concluindo uma acessibilidade de importância estrutural, desejada há décadas, que permitiu aproximar o Interior beirão da área metropolitana de Lisboa e do entroncamento com outras ligações nacionais e internacionais.

Esta auto-estrada foi pensada como instrumento de desenvolvimento do nosso território e desenhada numa perspectiva de promoção da coesão e da solidariedade nacional. Por isso, foi construída sem peso financeiro para as populações, instituições e empresas do Interior que, devido ao modelo SCUT, não teriam que pagar portagens. Mas em 2011 tudo se alterou. A debilidade da economia nacional, a crise das dívidas soberanas que afectou Portugal de forma muito significativa e as guerras político-partidárias fizeram com que fossem introduzidas portagens numa auto-estrada que foi pensada e construída para as não ter. Desde então para cá a população do Interior, as empresas e as instituições, têm vindo a debater-se com uma dificuldade acrescida.

As portagens nesta auto-estrada são, claramente, um sinal contrário para o futuro de um território que há muito se debate com diversas desigualdades. Todos sabemos que a construção e manutenção das auto-estradas custam muito dinheiro e que ele tem que vir de algum lado. Também sabemos que o nosso país não é rico e que precisa de equilibrar as suas contas públicas e baixar a sua dívida externa. Mas, também sabemos que esta auto-estrada foi construída com uma filosofia de apoio ao desenvolvimento do Interior e que, a partir de 2011, a realidade imposta veio demonstrar o contrário.

As populações, as empresas e as instituições debatem-se com muitas dificuldades. Não precisam de dificuldades acrescidas. Precisam apenas de justiça e de instrumentos de coesão que perspectivem o seu desenvolvimento. Quando o nosso território alcançar o estádio de nivelamento igualitário em relação ao litoral deve pagar portagens para ajudar a construir e a manter as estruturas de que necessita para o funcionamento da sua actividade. Até lá (e estamos muito longe disso!) o Interior não pode pagar portagens (que ainda por cima demasiado elevadas) sob pena de estar condenado ao deserto que se avizinha se nada for feito para contrariar essa tendência. Neste sentido, sou daqueles que defende que a abolição de portagens na A23 (e também na A25) é uma questão de justiça e de equilíbrio nacional. E é uma urgência na medida em que o Interior não pode perder mais tempo nem ser obrigado a gastar o dinheiro que não tem para sobreviver!