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Quando Listopad vinha à Beira

Manuel da Silva Ramos

Morreu o Jorge Listopad. Foi-se um grande admirador da Beira, das cerejas do Fundão, do ar saudável da Serra da Estrela, dos amigos fundanenses Fernando Paulouro e São Forte que trazia no coração. Convidei-o duas vezes a vir à Covilhã. Em 2005, para o 1º Encontro de Escritores da Covilhã e a segunda, em 2014, para o Café Literário. Na antiga Empresa de Lanifícios, reconvertida em Universidade da Beira Interior, com perto de sessenta escritores presentes, o Listopad, como homem sabedor de teatro, propôs sessões colectivas ou assembleias gerais para remediar à dispersão de escritores em salas pois havia sessões simultâneas. Claro, não foi ouvido pelos outros escritores egotistas.

Para o Café Literário da Covilhã, ele já não ficou hospedado na Varanda dos Carqueijais, com uma vista soberba sobre o vale da Cova da Beira, mas subiu mais um pouco e instalou-se na nova Pousada da Serra da Estrela, um antigo sanatório restaurado belissimamente pelo Souto Moura. Foi aí que o fui buscar para a sessão nocturna mas antes vimos na televisão um jogo de futebol com a nossa selecção nacional. O Listopad adorava futebol. Ele nascera perto do estádio de futebol do Sparta, em Praga, no bairro de Letná. No seu livro “ Deslizamento”, uma obra extraordinária de confissões, invenção e sabedoria, que ele escreveu já com 88 anos, ele conta tudo isso. O Jorge teve uma vida bem preenchida pois duas vezes teve de mudar de país e de língua.

Na Checoslováquia, participou na Resistência contra os ocupantes nazis e esteve na clandestinidade, coisa que o marcou muito. Leia-se, por exemplo, o emocionante último texto de “ Biografia de Cristal” ( uma obra-prima da literatura portuguesa) em que Listopad evoca o esconderijo onde viveu passando fome e lendo Turgueniev, até receber os papéis falsos, que o haviam de levar de novo à vida, das mãos de uma jovem camarada. Foi para França depois da Segunda Guerra Mundial e em Paris trabalhou dez anos na ORTF. Aí aprendeu o português, no metro, lendo “ O Crime do Padre Amaro”. Em 1960, veio para Portugal e desenvolveu ,durante 32 anos, actividades culturais na RTP. Foi professor universitário, professor na Escola de Música do Conservatório. Assisti a várias peças de teatro em que foi um encenador genial. Era um notável e inventivo criador de ambientes. A última peça que vi dele foi uma adaptação do livro magnífico de Rui Zink “ A Instalação do Medo”, e Listopad escolheu insolitamente as caves do Teatro São Luiz para a representação.

Teve inúmeros prémios e várias condecorações. Talvez a mais sentida foi a que lhe entregou o seu amigo Vaclav Havel, Presidente da República Checa, que saiu do hospital para lhe dar uma Ordem Honorifica. Foi o Jorge que me apresentou em Lisboa o grande poeta surrealista checo Ludvik Kundera, a afabilidade em pessoa, que depois fui visitar à sua casa em Kunstat, na República Checa. Também já faleceu. Gostava em Listopad, quando o via ou falava ao telefone com ele, do seu humor particular, da sua perspicácia tão subtil. E quando o leio, admiro a sua escrita tão diferente da do resto dos escritores portugueses. O Jorge sofria, como eu, de mitemite aguda ( estado paradoxal dos grandes exilados) pois às vezes via pessoas conhecidas fora do sítio. Foi assim que uma vez reviu numa rua do Fundão o seu avô retroseiro que era de Kolin. Isto está gravado no seu “ Deslizamento”. Chegou agora o momento de falar do Jorge Listopad, escritor português.

Conheço a sua obra e fiz-lhe a última entrevista que ele deu. O Jorge Listopad ficará na História da Literatura Portuguesa. Primeiro, porque é um checo que adoptou a língua portuguesa, só em 1960. Foi “Tristão”, o seu primeiro ( grande) livro, sobre a fidelidade e responsabilidade do intelectual àquilo que escolheu, e, a partir daí, durante mais de cinquenta anos, não parou de escrever em português. Só conheço o caso de Beckett, que era também bilingue, e que escrevia em inglês e francês. Segundo: os seus textos são de uma beleza a perder a respiração, com um humor prodigioso e uma imaginação diabólica. Leiam, por favor, e comprovem. “ Biografia de Cristal”, repito, é uma obra-prima. “ Deslizamento” é um fantástico manancial de beleza a céu aberto e “ Remington”( livro ditado porque Listopad já não podia utilizar a mão para escrever) não são contos, são diamantes puros. Escritor do mínimo essencial, Listopad praticava uma literatura de invenção permanente e de confissão de quem tinha vivido muito. « Escrever quer dizer ir confessando e apagando os rastos» dizia ele num texto de “ Deslizamento”.

Quando veio à Covilhã, mais a sua mulher Helena e a sua filha Francisca, participar no Café Literário, acolhi-o como um dos grandes escritores de Portugal e alguém que trazia à literatura portuguesa uma estranheza original que era benéfica. Como Kafka trouxera à língua alemã. O Listopad não terminou o romance que estava a ditar. Fiquemo-nos com o que ele disse uma vez: « As obras completas que as complete alguém, um outro. Eu não tenho tempo.» No dia 24 de Outubro, em Lisboa, no Banco de Portugal da avenida Almirante Reis, pelas 17h,30, houve a sessão ” Celebrar Listopad“, organizada pelo GDBP, e teve como hospedeiros o impulsionador cultural Hélder Santos e o autor desta crónica.

Lembrámos o mestre de Praga e do Restelo, para quem o dia começava no humor e não terminava no riso. Um passageiro singular que veio do país das defenestrações para dar à literatura portuguesa um lado misterioso primordial.