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Juntar forças

Miguel Nascimento

O nosso Interior precisa de juntar forças. O tempo foge-nos da mão e a terra vai definhando. Todos sabemos disso! Andamos, com toda a legitimidade, entretidos com as nossas coisas. Olhamos para nós e tentamos cuidar do que é nosso. Isto é válido para as nossas vidas, para a vida das empresas e para o espaço público, onde a política, dos partidos e da cidadania, determina as questões do presente e do futuro. Mas, para que o grande desiderato da política seja verdadeiramente colocado ao serviço do território e das pessoas que nele resistem precisamos de juntar forças e de fortalecer o entendimento regional para acautelarmos o futuro do chão que pisamos todos os dias.

Apesar de todos os horizontes de esperança sentimos que o Interior desfila por um caminho de morte lenta, de esvaziamento e de partidas. Cá vamos resistindo como podemos, fazendo o possível e tantas vezes o impossível para que a vida num território condenado há décadas a uma espécie de fronteira do subdesenvolvimento seja ainda uma realidade. As portas e janelas das nossas aldeias vão-se fechando. Os silêncios vão-se instalando paulatinamente. A vida vai perdendo o seu fulgor. As cidades vão sendo tomadas por espaços vazios, lojas e empresas fechadas e também por geografias urbanas degradadas que representam mais o passado do que o futuro.

Aqueles que estudam, também há décadas, as questões do desenvolvimento e da coesão do nosso território Interior também se vão cansando de dizer quase sempre a mesma coisa e de alertarem, ano após ano, para as consequências evidentes de não tomarmos o futuro nas nossas mãos. As autarquias vão fazendo o que podem. E fazem muito! O estado central vai, consoante a sensibilidade deste ou daquele governo, semeando alguns sinais de esperança. Mas isso não chega para fintar o destino de uma terra que vai perdendo espaço e tempo para o deserto que teima em dominar a paisagem. Precisamos de juntar forças e de olhar para o nosso Interior beirão como uma plataforma onde todos devemos dar o nosso contributo para que ele seja mais forte, coeso e com maior capacidade para enfrentar os desafios do presente e do futuro.

Mas, este apelo e esta convocação emocional não pode, de forma alguma, deixar de lado a discussão política intensa, o debate de ideias, a confrontação de projectos políticos e a participação activa da cidadania. Juntar forças não significa aplanar as forças. É com as forças de todos e com todas a visões alternativas que o futuro se pode desenhar na nossa região. E este caminho não é um espaço exclusivo dos partidos políticos ou da cidadania mais atenta e interveniente. Este caminho pode e deve ser trilhado por todos os que verdadeiramente gostam da sua terra e nela depositam as sementes de esperança no futuro. Se nos conseguirmos entender em diversas frentes podemos juntar forças, respeitando todas as diferenças, e construir uma verdadeira agregação regional que confira sentido a um tempo novo, de maior escala e de maior capacidade colectiva para se resolverem os problemas que nos afectam a todos.
Não precisamos de fanatismos ou de bairrismos exacerbados. Precisamos apenas que as forças vivas se juntem na construção de um sentido de região que reivindique tudo o que tem direito para alcançar o futuro e, sobretudo, para fazer, com as próprias mãos, o que faz falta para, em conjunto, invertermos o ciclo de desertificação e envelhecimento. O futuro é já ali à frente e não podemos perder tempo. Temos que juntar forças se quisermos lá chegar.