InícioOpiniãoO Interior e as “fatalidades”

O Interior e as “fatalidades”

Nuno Francisco

Fatalidade I: Parte-se do princípio, não se sabe muito bem porquê, de que nunca conseguiremos domar de forma significativa o número de ignições que ocorrem nas florestas e que, por exemplo, permitiram que no trágico dia 15 de outubro o país se visse a braços com mais de 500 incêndios. Estes números são, por si só, vergonhosos e chocantes – quase irreais – e que só podem revelar dois fatores fundamentais para a sua origem: uma profunda e continuada irresponsabilidade reinante vertida na ausência de cuidados mínimos que se deve ter em áreas florestais para evitar a eclosão de incêndios e, a outra, é, naturalmente, a intencionalidade em fazer arder.

As causas “naturais”, aqui, são estatisticamente irrelevantes. O problema do obsceno número de ignições em Portugal é, de resto, quase sempre secundarizado na discussão em torno dos incêndios florestais, como se tivéssemos que viver com centenas de fogos diários nos períodos mais críticos do verão. Era bom que esta “fatalidade” também chegasse à mesa do debate e se assumisse como tema prioritário para tentarmos entender – e resolver – o que realmente se passa. Porque, até prova em contrário, a floresta não arde por vontade própria nem por autoignição. Intencionalmente ou não anda quase sempre por aí a responsabilidade de alguém.

Fatalidade II: Quando se fala ou escreve sobre despovoamento – facto para o qual alguns vão acordando agora – não se fala nem se escreve sobre a mera subtração aritmética de residentes: Onde antes viviam X, agora vivem Y e continuamos com a nossa vida porque não há nada a fazer . Os impactos da constante subtração de população a um território não se apreendem nestes gráficos lineares. Medem-se pelas consequências que essa ausência tem, muitas delas nem sempre evidentes.

Segundo uma notícia da TSF, Mark Beighley previu que podiam arder, num ano, 500 mil hectares em Portugal. As razões seriam muitas mas sublinha uma: o abandono do Interior. Pois. Mas quem é Mark Beighley? Não se trata de um obscuro vidente, mas de um antigo dirigente dos Serviços Florestais do EUA que em 2004 ajudou o governo português a fazer o Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios.

Mas esta “profecia” foi escrita em 2009 num relatório entregue a uma das comissões parlamentares sobre fogos: “Na próxima década, o risco catastrófico de uma época de incêndios que consuma uma área igual ou superior a 500 mil hectares, em Portugal, deve ser levado muito a sério.”

Em declarações à TSF pede que se centrem atenções no território rural, tema menos atraente do que um “sexy anunciar de mais aviões, helicópteros, meios aéreos pesados” que “todos os políticos gostam de o fazer… mas não é o mais importante”. E diz outra coisa: “Os idosos que ficam não conseguem manter os campos que antes bloqueavam o avanço do fogo, dando lugar a árvores ou mato que ardem facilmente”. Ou seja, “conjugando o abandono do Interior, a progressão de espécies sem controlo que ardem facilmente e as alterações climáticas, era previsível que o resultado podia ser este.”

Fatalidade III: Continuar a olhar para tudo isto, fingir que nada se passa e após a desgraça consumada desabafar: “Foi uma fatalidade!”