InícioOpiniãoInteligência ou sensatez?

Inteligência ou sensatez?

Paulo Duarte

Rui seguia de carro com a família, mulher e duas crianças, num agradável passeio de fim de semana por uma pequena cidade no interior de Portugal quando a amável voz feminina do GPS lhe deu indicação para a virar à esquerda. Com a rotunda à vista, Rui ouvia atentamente as indicações do inteligente sistema de navegação por satélite e na presença de uma convidativa rua à esquerda, mesmo à entrada da rotunda, seguiu a gentil, insistente, útil e supostamente inteligente indicação. Sem contornar a rotunda virou à esquerda deixando os transeuntes presentes com a sensação que algo errado tinha acabado de acontecer.

Tudo teria terminado bem não fosse a inteligente e prática manobra ter sido presenciada por diligentes agentes da GNR. O facto mais interessante desta história, verídica, foi a razão apresentada por Rui quando foi interpelado pela autoridade. “- A culpa foi do GPS, senhor Guarda. Ele é que me mandou virar à esquerda”. Já sabíamos que teria de haver um culpado. Claro que, à vista do que previsivelmente se seguiria, o Rui tentou expatriar a culpa.

É notório que a sociedade coloca atualmente enorme ênfase e esperança na tecnologia e nos sistemas ditos inteligentes. Contudo, a utilidade destes sistemas está notavelmente condicionada pela sensatez e discernimento de quem os utiliza. Tomemos como exemplo o conceito das cidades inteligentes (Smart Cities) tão em voga atualmente. De forma simplista, o conceito consiste em utilizar sensores e sistemas informáticos para monitorizar, automatizar e gerir uma série de sistemas urbanos de modo a torna-los mais autónomos. Com isto procura-se aumentar a eficiência dos serviços e operações com o fim de incrementar o nível de serviço e a qualidade de vida dos cidadãos e do ambiente urbano.

Recentemente tomei consciência que o Fundão está envolvido num destes projetos inteligentes, patrocinados por fundos Europeus com vista à smartificação das cidades: O MUV (https:// www. muv2020.eu/); um projeto focado na melhoria da mobilidade urbana. Obviamente, é de enaltecer e louvar a capacidade do Fundão para integrar o consórcio do projeto com parceiros como Amsterdão, Barcelona, Helsínquia, Palermo e Ghent. Todavia, há também que ter consciência que os problemas de mobilidade no Fundão não são minimamente comparáveis com os dos outros parceiros, que mais não seja pela diferença de dimensão.

O mais pequeno dos parceiros, com 259 mil habitantes, tem 30 vezes mais residentes que a cidade do Fundão.  Não quero com isto sugerir que não haja problemas de mobilidade interna, mas é bom que tenhamos consciência que os problemas de mobilidade do Fundão são significativamente diferentes e provavelmente não se resolvem com uma App e umas estações de monitorização.

O real desafio de mobilidade que o Fundão, bem como toda a Cova da Beira e o Interior em geral enfrentam está na componente da mobilidade externa. Por um lado, a nível regional, verificamos que a distância entre algumas cidades da Região é menor que a distância entre os extremos de muitas grandes cidades, mas ainda assim nunca foi pensado um sistema de transportes urbano entre estas. A nível nacional, apesar da região estar dotada de vias ferroviárias e rodoviárias que a ligam ao resto do país e à Europa, a sua utilização é desincentivada, quer seja por via dos horários e frequência, quer seja pela imposição de portagens que limitam fortemente os movimentos de entrada e saída. Em especial os primeiros, porque quem cá vive não tem alternativa. Nesta senda da smartificação, o meu desejo é ver os protagonistas locais atuarem com argúcia no sentido de procurarem soluções objetivas e realistas para os desafios que se colocam à Região, incentivando e apoiando investigação útil e pressionando inteligentemente os botões da máquina governativa para que a cada nova smart ideia aprovada não nos sintamos mais isolados.

E por que todos somos alvos desta onda de “inteligencificação” do dia a dia, remato esta crónica com a história pessoal de uma vez em que a inteligente e simpática voz do GPS me disse que estava a 100 metros do destino. Para chegar bastava seguir por uma rua onde, de tão estreita o carro não cabia. Felizmente, ao contrário do Rui, tive a sensatez de não prosseguir. Serviu-me de lição.

pduarte@gmail.com