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Homenagem aos privados

Gabriel Magalhães

Sou cliente há muitos anos da oficina “Auto Monte Estrela”: eles ampararam o Renault 5 com que aqui chegámos, e depois foram acompanhando, com grande competência mecânica, a carrinha que tivemos e o Mazda onde vamos viajando a nossa vida. Ao princípio, estavam localizados no alto da cidade, perto da Capela do Calvário. A garagem era pequenina, fazia pensar na casa dos sete anões na história da Branca de Neve, mas o Senhor Paulo e o Senhor Manuel saíam de baixo dos carros com um sorriso para o cliente – e propunham soluções razoáveis, económicas, para a carripana que uma pessoa lhes confiava.

Com o tempo, e já com o Senhor Luís também no cenário, prosperaram e instalaram-se numa grande nave industrial na Estrada do Sineiro, da qual mudaram para outra, porventura maior ainda, na Rua da Indústria, perto do bairro dos Penedos Altos. “Se uma pessoa quiser trabalhar, não lhe falta trabalho”: é esta a filosofia do Senhor Paulo, que costuma enunciar com um sorriso maroto, que a clientela bem lhe conhece. E, de facto, além da competência, a garagem “Auto Monte Estrela” distingue-se também pela capacidade de esforço de toda aquela gente, que dá sempre o seu melhor e não abusa da freguesia. No estabelecimento, existe um respeito realista e humano pelo bolso de quem lá lhes aparece: consideram-se mecânicos, pintores, bate-chapas, e não piratas.

Muitas vezes, em parte por causa desta gente admirável da “Auto Monte Estrela”, tenho pensado na sorte dos privados em Portugal. Quando se retira algum direito aos funcionários públicos – é o fim do mundo, e são muitos os que uivam a sua indignação. Mas com quem trabalha por sua conta o país porta-se de uma maneira diferente: cobram-se-lhes as taxas, os impostos todos, implacavelmente, antes mesmo de eles terem podido garantir um ordenado para viverem. Depois de cumprirem com o Estado, pode não ser fácil conseguirem um salário. Além disso, há clientes que nem sempre pagam a tempo e horas – o que cria novas dificuldades. Com efeito, são necessárias muita energia, grande coragem e notável capacidade de sacrifício para se ser um privado em Portugal.

O Estado tem o seu lugar e quem nele trabalha deve fazê-lo em condições dignas. Se os privados, porém, fossem acompanhados por uma legislação mais encorajadora, o país mudaria: teríamos mais iniciativa, menos imigração e mais riqueza coletiva. Construiríamos uma terra de cidadãos capazes de abrirem a vida por si mesmos: altamente ativos, críticos e confiantes. Contudo, o vício da dependência estatal é tão forte, que esta reforma nunca foi feita, nem pela direita, nem pela esquerda. Aqui fica a minha homenagem, através deste grupo de valentes da “Auto Monte Estrela”, que podem ver na fotografia, a todos os privados do país. E concluo com uma frase de Almada Negreiros: “Enquanto em Portugal cada uma das pessoas humanas portuguesas não tiver a possibilidade de entregar-se totalmente a fundo, à incógnita da sua própria personalidade, continuará ainda tudo por começar”.