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O futuro do trabalho

José Páscoa

No mundo atual a busca pela melhoria do desempenho, a qualquer custo, é o paradigma reinante. Trata-se, no fundo, de transmitir a todas as áreas do trabalho a cultura criada com a mecanização dos processos de produção industrial. Os países de economia planificada levaram este paradigma ao extremo, aplicando-o a toda a sociedade, com as consequências que todos conhecemos. Essa abordagem, mesmo na nossa sociedade, afeta hoje muitas outras áreas da atividade humana. As ubíquas máquinas de venda automática de produtos, e os próprios multibancos, tornaram a presença humana residual. A pergunta que devemos fazer é se tudo será automatizável, e se o ser humano será descartável.

Acreditamos que a modernização através da mecanização, com vista a aumentar o rendimento, não é aplicável de igual forma a todas as áreas da ação humana. Se desejarmos ouvir um quarteto de cordas interpretando Bach não podemos eliminar o violoncelista, para reduzir os custos. Mas também não podemos aumentar o número de espetáculos do quarteto, fazendo com que os músicos toquem mais rapidamente, cobrando por três ou quatro na mesma noite. Simplesmente, não é possível.

Podemos até encontrar no youtube óperas inteiras de Rossini, gravadas no Teatro alla Scala de Milão, mas nada se compara à vibração e emoção transmitida na sala ao vivo. Por outro lado, o custo da distribuição da música, nos diferentes suportes, é quase nulo. Hoje qualquer compositor, ou escritor, pode distribuir as suas obras na internet, com um custo residual. E é precisamente por isso que, na atualidade, muitos músicos distribuem as obras online de forma gratuita, promovendo-as, garantindo que o público vai depois pagar para assistir a concertos ao vivo.

De igual forma também não há substituto absoluto para a experiência de estar com um professor numa sala de aula. Quer se trate de um infantário, de uma escola primária, secundária ou universitária. O ensino, e também a medicina e as artes, estão sujeitos a um paradigma de custo-eficiência que é diferente do obtido com a mecanização.

A internet também se imiscuiu na sala de aula. Existem materiais disponíveis online que abarcam todos os níveis de ensino, desde o básico ao universitário. A informação está disponível em várias línguas e é apresentada de forma gráfica e atraente. Mas, para o estudante, o que conta não é o acesso à informação, mas sim o que realmente ele aprendeu, o que ficou a saber. O objetivo primeiro de uma escola, ou universidade, é o de mudar o estado atual de conhecimento do estudante, ampliando-o.

Se a humanidade achasse que não era importante a relação entre o professor e o estudante então apenas teria produzido bibliotecas, onde essa informação ficasse armazenada para consulta. É precisamente por causa da importância dessa ligação que surgiu a escola, a academia, a universidade. Não basta ao estudante aceder a uma biblioteca ou a materiais na internet.

Para que o acesso à informação se transforme em conhecimento, devidamente apropriado pelo estudante, é necessária a relação professor-estudante. E, tal como num concerto ao vivo, não há nada de comparável ao clímax do encontro em sala de aula. A universidade do futuro tem de viver do cruzamento das tecnologias com a sala de aula, sem nunca anular esta última. É para beneficiar desta experiência única que mais de 1000 estudantes, de 40 países, resolveram passar vários anos da sua vida na Universidade da Beira Interior a fazer os seus cursos. Eles buscam o conhecimento, e não apenas a informação.

Concluímos assim que nem tudo é automatizável. A profissão do futuro é a que utiliza o intelecto humano e o conhecimento adquirido nas mais diversas áreas.