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Filhos da ausência

Nuno Francisco

A marcha do tempo torna-nos mais permeáveis às subtilezas que povoam a essência dos dias. A perceção dos pormenores torna-se mais apurada e cristalina e  ajuda-nos a olhar para além das evidências. Os velhos contrastes que se afiguram perante nós tornam-se mais distintos e aprende-se a valorizar outras componentes aparentemente mais subtis  dos dias que nos trespassam. Somos as memórias que temos, somos os lugares que pisámos em criança, as ruas por onde corremos, os abraços que demos e recebemos.

Somos, também, parte daquele sorriso dos nossos avós que jamais esqueceremos; somos a aldeia, a vila e a cidade que nos fez encontrar quem hoje ainda estimamos e amamos, tantas vezes à distância. Quem já se atreveu a uma viagem sem destino certo por estas vastas terras da Beira, sabe que a certo momento somos confrontados com  memórias feitas de lugares; réplicas de um tempo que se esvaiu por entre estas ruas que agora gritam silêncio.

Nestas aldeias que povoam a geografia beirã não encontraremos grandes diferenças entre o que um dia foram e o que hoje são. A inexorável passagem do tempo fez destas casas monumentos erguidos à ausência; fez estas ruas calarem-se e com elas, a pespetiva exata  de um futuro emudecido. Nestas paisagens que nos construíram e moldaram, o passar do tempo, também, por nós, faz com que estejamos mais atentos ao que o silêncio nos quer dizer. E ele diz-nos muito, permitindo-nos fazer o contraste entre aqueles  lugares vivos de outrora e estes lugares mudos de hoje. Pelo meio, olhamos para a longa travessia onde se conquistaram as nossas memórias.

Estas geografias que nos moldaram são as da ausência, as da partida sem regresso certo e as da saudade como legado. Quase todos partilhamos deste desígnio de olhar para longe em busca dos afetos que partiram. Ficaram, sim, os lugares erguidos nesta aparente perenidade do tempo para nos lembrarem que cada casa fechada, em cada escola encerrada, em cada rua silenciosa moram testemunhas que nos recordam a nossa condição. Os que ficaram, ficaram entregues a esta longa espera de um retorno anunciado com data marcada, quanto muito,  para as férias de verão e para o Natal. Aprendemos a olhar para longe e a esperar. Aprendemos a conviver com o silêncio. De rua em rua, de aldeia em aldeia, vivemos onde as palavras ausentes se envolvem com a saudade.

É por estes lugares  que frequentemente viajo.  A idade já permite  olhar para estas paisagens beirãs pela lâmina da ausência que nos traz à memória muitos daqueles que o tempo nos roubou. Nessa caminhada que fazemos diariamente, a perda de quem amamos é uma inevitabilidade e será sempre no perpetuar daquilo que de melhor nos legaram, que alcançamos o conforto para lidar com essas perdas. Mas haverá sempre, nestas terras, de bastas partidas e de raras chegadas um travo amargo que nos acompanha. Saber ouvir pacientemente o que o silêncio nos diz, também nos levanta velhas questões. Uma delas é sempre o porquê de termos ficado, geração após geração, reféns desta condição de nos sentarmos algures numa destas aldeias da Beira, olharmos de frente para a ausência e nada esperar a não ser aquilo que a a saudade nos quer entregar.