InícioOpiniãoEstamos melhor do que em 1998?

Estamos melhor do que em 1998?

Nuno Francisco

O Iinterior está na moda, pelo menos no que diz respeito ao exacerbamento de vontades. O recente Movimento PeloInterior, que integra algumas figuras de proa da economia e da política nacional,  prepara-se para entregar propostas de rutura em relação ao Interior do país. O “tratamento de choque”  irá ser entregue ainda este mês, em Belém, ao Presidente da República, e contempla propostas fiscais como só o investimento no Interior poder ter incentivos do Estado;  12,5 por cento de IRC para todas as empresas que invistam no Interior e  o reinvestimento de lucros sem restrições. Uma das ideias passa também pela obrigatoriedade de se  colocarem todos  os novos serviços do Estado no Interior. As propostas, tal como Miguel Cadilhe afirma no semanário Expresso, precisam de coragem política, tanto ou  mais do que dinheiro. Depois da apresentação das propostas, o Movimento dá por concluído o seu propósito, aguardando-se pelo caminho que as contribuições farão.

Ninguém poderá retirar mérito ao trabalho realizado por este movimento e, muito menos, às propostas que, lendo-as com atenção, denunciam o estado de emergência e de premente necessidade de se esquecerem os paninhos quentes e de dar lugar a verdadeiras políticas de rutura para um território económica e demograficamente profundamente desequilibrado. Mas há aqui algo que parece estar a falhar. Se estamos todos de acordo que parte substancial do território nacional está sob um manto de fragilidade e que há notórios e gritantes desequilíbrios regionais, há uma vertente da discussão que se faz por esquecer.

Vinte anos depois do referendo à regionalização, o tabu continua.  Só a palavra parece criar calafrios e não induz  grande empenho em que o tema volte a ver a luz do dia. O mapa chumbado em 1998  – num referendo que não foi vinculativo – contemplava a região da Beira Interior  como uma das regiões administrativas com uma relativa autonomia para olhar para si própria e tratar dos seus problemas específicos – os tais que hoje continuam a motivar profundas preocupações e a exigirem medidas “radicais”.  Se bem nos lembramos, por entre o argumentário contra a regionalização estava aquele que nos dava conta que não passava de mais uma forma de criar “tachos” para os políticos, que não iria resolver nada e – espantoso! – iria dividir o país.

Vinte anos depois, quando a palavra “Interior” enche as páginas dos jornais pelos motivos evidentes, ninguém faz a pergunta que deve ser feita: Em 2018 estamos melhor do que em 1998, num país livre “de tachos” regionais, afastados de uma reforma do território “que não nos ia levar a nada”, a não ser “dividir o país?”.  Esta é a pergunta que hoje continua à espera da resposta de quem tão afoitamente se atirou contra a regionalização e à criação da região administrativa da Beira Interior. Vinte anos é tempo suficiente para se perderem os medos e os traumas em relação ao processo da regionalização. Há que, pelo menos, trazer este tema para a discussão porque se é para se falar a sério de soluções para reverter a atual situação no Interior, não se pode passar ao lado de uma ponderação sobre modelos de descentralização que não sejam apenas mais  cosmética e resmas de papel cheias de boas ideias.