InícioOpiniãoO espantoso Brasil de Fernando Paulouro

O espantoso Brasil de Fernando Paulouro

Manuel da Silva Ramos

“Este senhor, aqui sentado à minha beira, chama-se Fernando Paulouro Neves e o muito que teria a dizer dele sintetizou-o a minha mãe, há um ror de anos, quando o conheceu. Disse-me só isto : Oh filho, mas ele é tão boa pessoa! E eu só acrescentei: E escreve muito bem! “

Assim começou Daniel Reis a sua emotiva apresentação do último livro do ex-director do Jornal do Fundão, “ Brasil em Mim”, no sábado dia 17 de Fevereiro, na Biblioteca Eugénio de Andrade do Fundão, perante um público numeroso constituído por amigos e admiradores.

A seguir, Paulo Fernandes, o presidente do Município, aproveitou a ocasião de ter a seu lado os co-autores do livro “ A Guerra da Mina e os Mineiros da Panasqueira” para os felicitar por terem realizado uma obra pungente , « um livro que todos temos que ler», frisou. Depois elogiou Fernando Paulouro Neves , « o amigo imprescindível e militante que quando denuncia é talvez para que a terra seja mais razoável.»

Fernando Landeira e Adelino Pereira, actualmente as duas vozes mais magistrais da Beira Interior, leram excertos do livro e emocionaram. Depois desta apresentação calorosa e fraternal, voltei para casa e li a obra de um fôlego. Com o livro nas mãos, pensei na grande transformação que se operou em Fernando Paulouro Neves. Física e intelectualmente. O autor está cada vez mais rejuvenescido, com um ar francamente juvenil e descontraidamente feliz. E do ponto de vista intelectual, assistimos neste livro ao nascimento do poeta Fernando Paulouro Neves.

Ele ousou e fez bem. Foi preciso ir ao Brasil para esclarecer e consolidar esta flecha do seu arco. Basta lermos o poema sobre a matança dos nomes, sátira política ao irmão do Marquês de Pombal, Mendonça Furtado, governador do Grão-Pará e do Maranhão, que baptizou com nomes de Portugal um território imenso cheio de nomes ameríndios (por exemplo, Tapajós deu Santarém, Matapuz foi chamada de Pinhel, etc), para vermos a inspirada e temível verve de Fernando Paulouro.

E que dizer do seu elogio poético ao rio Arapius, que ele chama de « jardim e floresta aquática que flutua» ? Que é belo e sentido. E não podemos esquecer o seu espanto lírico diante da ingenuidade dos índios que parecem viver o mundo original em Atrocal: « Há no fundo tanta crença/ tanta certeza de ser/de liberdade e de pertença/ — tão grande fidelidade/ à terra que os viu nascer.» Assistimos também neste livro à nascença de um Fernando Paulouro viajante, que procura o mundo para o poder contar.

Aliás é mesmo o que ele afirma, a certa altura, no capítulo “ Amazónia, coração do mundo”: « Tenho vivido abundantemente a aventura de descobrir realidades novas, físicas e humanas. Coisas espantosas que não esquecem mais» Contrariando assim alguns célebres escritores viandantes que viajaram para confirmar coisas.  Circulando por Minas Gerais, descobrindo Brasília ou indo à Baixa Amazónia, o nosso autor instala neste seu triângulo vários Amazonas pessoais e sentimentais ou históricos.

Falemos só de alguns. Um Amazonas literário (com louvores a Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, etc), um Amazonas musical ( com saudações a Caetano, Maria Bethânia, Vinicius, Caymmi, Chico Buarque, Gilberto Gil, etc), um Amazonas político ( com um constante ataque ao corrupto Presidente Temer e à antiga ditadura militar que durou 21 anos, com um relembrar saudoso do Presidente Jucelino Kubitscheck que veio ao Fundão a convite de António Paulouro, etc), um Amazonas de cumplicidades ( com professores de Universidade, com o extraordinário José Cortes, o missionário do Verbo Divino que o acolheu em Santarém, etc,).

Em conclusão. Fernando Paulouro fez-se caminhante e poeta, leitor e cronista, turista e crítico político, admirador nocturno e diurno,  amigo e denunciador das impunidades e injustiças sociais. É humanista diante do sofrimento do passado. Por exemplo, em Diamantina, diante do Caminho dos Escravos ( Estrada Real do século XVIII) , construído por estes, a sensibilidade do nosso autor manifesta-se imediatamente; « Quantas lágrimas, quantas feridas, quantas mortes, jazem sob estas  pedras?» Fecho este livro sápido de Fernando Paulouro e as primeiras palavras que me vêm à memória são: literatura, amizade e amor.

Na verdade, este é um livro que é o triunfo da literatura ( o autor foi à procura dos traços de um personagem do século XVIII para concluir um romance, o autor foi também à procura de escritores brasileiros que sempre amou e outros que descobriu). Na realidade, esta é também uma obra onde a amizade tem um papel importante, com amizades novas e outras antigas confirmadas. É também um livro que respira felicidade por todos os poros. E, finalmente, que espraia o bem escrever do autor, a sua sabedoria e erudição. Belíssima capa e contracapa de Francisco Elias Júnior.

Aproveitando o verde brazuca, o designer  desconstruiu a bandeira brasileira ao mesmo que se aproveitou dos elementos geométricos de Niemeyer. E a linha branca que atravessa o conjunto, é a viagem de Fernando Paulouro Neves. Esta obra, que não é vendida em livraria, pode ser pedida para:  fpn.livros&gmail.com. Um livro a conservar porque único, o autor sendo corajosamente o próprio editor. Um autor em plena forma que com esta escapada brasileira fortaleceu a sua obra literária.