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Escultores de músculos

Gabriel Magalhães

Com os anos, as dores do nosso corpo vêm para ficar. Aquela alquimia da juventude que nos permite recuperar completamente após uma noite de sono ou uns dias de repouso – deixa de funcionar. E é assim que a nossa pobre carne se transforma num armazém de incomodidades, com as quais vamos vivendo. Contudo, apesar de eu me encontrar já neste outono pessoal, não aprecio a conversa das doenças, própria desta idade: a telenovela das mazelas narradas ao próximo no pormenor de todos os seus episódios.

No entanto, gostava de falar de pessoas que me ajudaram a ultrapassar estes barrancos de dor. Poderia referir excelentes médicos, é claro, mas, como esta classe já está suficientemente divinizada pela sociedade portuguesa, que neles procura a vida eterna de durar muitos anos e lhes admira, além disso, a prosperidade económica, prefiro escrever sobre os massagistas da fisioterapia. Uma classe bastante esquecida, o que é injusto. Porque, na realidade, fazem muito pelo nosso bem-estar.No meu caso, foram eles que me extraíram, com o saca-rolhas das massagens, diversas dores que tinha cravadas no corpo.

Existe na Covilhã uma clínica com nome em inglês: “The Best Election”. Foi a esta praia que aportei depois de vários naufrágios musculares. E foi aí que conheci gente extraordinária. Não pensem que é fácil lidar com a dor dos outros: com o desânimo, a amargura, por vezes mesmo o egoísmo que ela gera. Um massagista não deve ter só mãos habilidosas: é importante que possua também uma boa alma. Uma clínica de fisioterapia assemelha-se a um acampamento de refugiados: as pessoas chegam lá débeis, escangalhadas.

Quando se deitam nas marquesas, ficam muito mais do que deitadas: sentem-se frágeis, ridículas. E impõe-se ter grandeza humana para as ajudar. Um massagista é um escultor de músculos – mas, para fazer bem o seu trabalho, tem também de saber lidar com os espíritos dos corpos que trata.

Deixem-me, pois, apresentar-lhes os massagistas desta clínica: o Senhor Sérgio que, desde as suas alturas de defesa central, já me compôs um ombro, já me alisou vértebras e ligamentos; a Dona Sandra, uma força da natureza, muito organizada e sempre simpática; o Senhor Paulo, com os seus óculos, que tem o cuidado de nos explicar em pormenor e com grande amabilidade os roteiros todos da nossa musculatura e do nosso esqueleto; o Senhor Carlos, que entrou muito bem dentro desta lógica de gentilezas, dando mais um sorriso à casa. E, presidindo a tudo isto, last but not least, o Senhor Queta, patriarca e inspiração maior deste lugar.

Esta será a última crónica da série que se intitulou “De cá para lá”. Quem escreve por vezes precisa da fisioterapia do silêncio. Mas queria agradecer muito aos leitores destes textos e, também, ao “Jornal do Fundão”, que os acolheu. Durante uns anos, andámos de um lado para o outro num avião de palavras, visitando ideias e paisagens. Com o Natal à espreita no horizonte, deixo a todos os meus votos de Boas Festas e de um magnífico 2018.