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Discriminações e outras questões

Nuno Francisco

1 – Se reduzirmos à fração mínima velhos hábitos de  autoflagelação sobre a condição do Interior, veremos que tantas das súbitas preocupações que agora trespassam  discursos e vontades políticas, gravitam quase sempre  em torno do esdrúxulo termo “discriminação positiva” e de outras supostas beneficências para com um território que  presumivelmente e desgraçadamente se deixou colocar nesta tão frágil situação. Logo, são precisas medidas de exceção para tentar ir em salvação de tanta terra sem gente: Políticas fiscais discriminatórias, investimentos públicos e canalização de vontades privadas. Longas listas do isto e do aquilo que têm como resultado umas belas linhas de texto para serem lidas. A prática, essa já a conhecemos:  a contínua quebra demográfica no território.

Só desde o início deste século, desapareceram desta região dezenas  de escolas de primeiro ciclo, postos de saúde e de correio e outros serviços públicos e privados de primeiríssima necessidade. A justificação foi sempre a mesma, numa absurda inversão da equação: se não há pessoas, não há necessidade da prestação de serviços. E lá se foram eles, os últimos elos fundamentais da ligação doEstado ao território em nome de  poupanças ridículas, à custa de quem não tem poder reivindicativo. Tudo foi partindo candidamente por entre o silêncio avulso de que não nada mais pode fazer do que resignar-se e tomar como boas as justificações que são dadas.

Não deixa de ser irónico que quem a fez  ou quem foi conivente com esta depredação  de serviços no Interior, comprometendo ainda mais o futuro do mesmo, ache que todos os impactos das decisões tomadas perante a inércia e o silêncio de tantos, se podem inverter pela invocação de umas quantas palavras mágicas. E, de facto, só mesmo por magia se pode inverter uma situação que se arrasta no tempo, gerindo-se sempre as consequências, mas nunca a fonte dos problemas.Que sinal se dá quando se fecha uma escola?Alguém acreditará, salvo alguma raríssima exceção, que ela voltará a reabrir naquela aldeia? Que mensagem se manda a alguém que esteja a ponderar instalar-se num território onde o Estado saiu de mansinho?E para muitos lugares  desta Beira Interior já  é tarde demais para tanta boa vontade e tamanha atenção para os seus problemas.

Quem quiser  olhar para estes lugares para além da retórica , que se dê ao trabalho de caminhar nestas ruas e que tente ouvir as pessoas. E aprender com o que se diz. E, sobretudo, com o que já não se diz. Porque já ninguém está disponível para abraçar apenas boas vontades.

2 – Assunção Cristas, a líder do CDS, assegurou, numa entrevista ao Expresso, a propósito de uma tourada organizada pela Juventude Popular, que gosta muito do espetáculo e que a vê “como um bailado”. Como há sempre um “mas” nestas coisas, a dirigente política lá diz que se pensar “muito, muito, muito”,  até é capaz de ter pena dos animais que estão ali para “bailar” – talvez um pouco contrariados, arriscamos dizer. Se pensarmos “muito, muito, muito” até podemos encontrar algum sentido neste encadeamento de palavras. Mas enquanto não refletimos nestas palavras ainda vigora a reação inicial: Onde é que está o mínimo de sentido nisto tudo? O melhor é continuar a pensar muito, muito, muito… e tentar esquecer.