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Uma comunidade de inovação

José Páscoa

Diz um velho ditado que o melhor tempo para plantar uma árvore foi há vinte anos, mas também se diz que o segundo melhor tempo é hoje. Não vale a pena assumirmos uma atitude de comiseração, elencando frustrações, sobre as oportunidades e os anos perdidos. É verdade que não trabalhámos convictamente como comunidade, e que não fizemos o esforço necessário para tal. Durante anos deixámo-nos cativar por algum crescimento económico e social, mas este nunca travou o processo de erosão populacional que, qual hara-kiri, nos agoniza há mais de 50 anos. É verdade que, durante algum tempo, fomos agressivamente reivindicativos sobre as políticas sociais, na saúde e educação, mas demos muito menos atenção às exigências de longo prazo, de desenvolvimento económico e sustentabilidade do território.

Para que um território se desenvolva tem de ganhar competitividade articulando inovação com capacidade empreendedora. E para que tal aconteça é necessário que um modelo de inovação seja apreendido pela comunidade que procura a mudança em direção ao crescimento. Não basta dizer que se concorda com a inovação, é claro que esse é um primeiro passo, é necessário assumi-la nas suas diferentes vertentes. O modelo que mais se ajusta ao nosso contexto regional é o da hélice quádrupla.

Já sabemos que no clássico modelo de hélice tripla se assume como essencial alinhar universidade, empresas e estado, seja este representado pelas autarquias locais ou pelo governo nacional. Aqui, em lugar de ligações simples entre os municípios e as empresas, que tiveram sucesso relativo no passado, é essencial articular também a universidade, promovendo assim as condições para dinamizar uma economia do conhecimento de base local. No nosso caso preferimos falar em hélice quádrupla, no sentido em que é ainda necessário introduzir um quarto elemento: a cidadania. De facto, a inovação só faz sentido quando esta é dirigida para e pelas pessoas, como aliás é recomendado pelo comité das regiões da união europeia.

As universidades evoluíram de instituições escolásticas, focadas predominantemente no ensino, para universidades de investigação e produção do conhecimento. Mas hoje elas vão muito além disso, pois assumem uma função empreendedora e comotora do progresso económico da sociedade onde se inserem. Também a nossa UBI se tem reinventado continuamente enquanto universidade, criando internamente elementos de interação entre a universidade e a economia local.

Os municípios foram, devemos reconhecê-lo, os primeiros a identificar a importância de interligar o conhecimento com a economia. Mas há ainda muito a fazer no que diz respeito a esclarecer os empresários sobre o que as universidades podem fazer, e já fazem, e ainda sobre as vantagens de se ligarem a elas. Muitos empresários, não todos, em lugar de trilharem o percurso da inovação e da expansão do mercado da empresa, preferem clamar por subsídios e medidas protecionistas.

As universidades também não fogem muito deste paradigma, e muitas preferem manter-se na sua zona de conforto. Hoje em dia muitas universidades têm fortes relações de ensino-investigação com numerosos parceiros internacionais, mas o seu impacto na economia local é ainda limitado, face ao potencial instalado. Uma verdade absoluta para a generalidade das universidades portuguesas, mas que a UBI tem pioneiramente contrariado.

A erosão populacional do território só pode ser contrariada importando mão de obra. E para isso é importante que as nossas empresas assumam continuamente a ambição de crescer. A inovação tem sempre um objetivo comercial e, portanto, necessita de ter como protagonista as empresas. A inovação, seja ela tecnológica ou do modelo de negócio, é essencial para assegurar esse crescimento. Para isso é essencial adotar plataformas de reforço da interação entre os quatro atores fundamentais: municípios, universidade, empresas e cidadãos.